C’est un malheur qu’il y ait trop peu d’intervalle entre le temps où l’on est trop jeune et le temps où l’on est trop vieux. (Michel de Montaigne)

Uma história circula há décadas na minha família. Nela, minha avó Cezarlina para diante de um espelho e diz, com ar preocupado. “Minha gente, acho que estou ficando velha”. Tinha 92 anos na ocasião. Minha avó, personagem principal do romance que escrevo, é meu modelo de envelhecimento. Foi a dona do seu destino até o fim.

Vovó acordava às seis da manhã e ia cuidar do seu quintal. Molhava as verduras, as flores, as ervas medicinais. Depois cuidava de si e da casa. Asma, osteoporose e mil outros problemas de saúde não a impediam de ser a chefe da família, a estrela do bairro, a conselheira preferida dos vizinhos, a que aos domingos percorria as casas dos amigos enfermos distribuindo a eucaristia da sua fé católica.

Só parou essa rotina quando caiu e quebrou o fêmur. Fatal. Poucas semanas depois morria numa cama de hospital. Estoica, enfrentando a dor. Já havia dado instruções detalhadas sobre seu funeral. Ninguém cogitou desobedecê-la.

Minha avó e meus tios me ensinaram a respeitar a experiência que vem com a velhice, algo muito raro nestes nossos dias. Não foi planejado. Veio no pacote familiar como algo natural.

É um respeito que se manifesta nos detalhes, aquele lugarzinho no qual, diz o provérbio, mora o demo. Traduz-se no tratar o idoso como pessoa adulta. Nada de infantilizar gente que atravessou a vida trabalhando, construindo e educando. É inaceitável ver filhos, netos, empregados e até desconhecidos falando tatibitate com os avós.

Pior é quando o idoso está lúcido, mas é solenemente ignorado. O diálogo só acontece com o parente mais jovem: “Que medicações a nossa queridinha está tomando?”, “Ele urinou hoje?”, “Como está o apetite dela?”, “Sua mãe está tão bem! O que ela faz para se manter ativa?”. Ora, meu caro, pergunte diretamente à pessoa! Meu amigo Thiago Monaco, geriatra, outro dia comentou sobre seu desconforto ao ver médicos tratando idosos como se fossem bichinhos de estimação incapazes de responder a perguntas simples. Concordo com ele. É degradante. É dispensável.

Ajuda de parentes é bem-vinda, quando necessário. A memória trai, ninguém é obrigado a lembrar todos os detalhes de um tratamento ou situação. Mas essa ajuda deve vir embalada em dignidade, bom senso e educação – algo que a intimidade familiar por vezes faz esquecer. Que mania temos de guardar nossa polidez para estranhos!

É absolutamente bizarro ver alguns familiares tratando seus idosos como se estes tivessem desaprendido a viver. Ignoram propositalmente sua acuidade mental ou tratam com desdém seus conselhos e ponderações, desdenham de sua experiência de vida. Isso quando não dão demonstrações cabais de falta de paciência.

Diante de filhos e netos ingratos, que retribuem a dedicação recebida com as pedradas do descaso e da impaciência, gostaria de poder rebobinar o tempo e obrigá-los a ver o filme dos sacrifícios dos pais. Convenientemente, muitos esquecem que a pessoa cujas opiniões hoje são desprezadas foi quem – durante o largo período da existência em que os ingratos eram dependentes e frágeis – soube prover sustento e estudos (os mesmos estudos que os fazem supor serem superiores à geração anterior). Idosos podem ser difíceis? Sem dúvida. Assim como crianças, adolescentes e adultos.

Amnésia de filho dói mais. Criá-los para o mundo é sábio, mas certamente ninguém espera passar os dias na solidão, sem um telefonema gentil, uma palavra de afeto, uma conversa atenciosa, um gesto menos mecânico. Neste exato momento há milhares de pais e avós doentes que não merecem dos descendentes o benefício da paciência extra ou da atenção às suas reais necessidades.

Muitas vezes instalados em imóveis obtidos com a ajuda dos idosos, desfrutando de empréstimos consignados graças à aposentadoria deles, há uma enorme quantidade de gente que, ainda assim, considera os pais um fardo.

No capítulo da ingratidão, grosseria de filho e neto é antessala do inferno. William Shakespeare descreve o inverno como “áspero, raivoso, rude, estéril, cortante e furioso”, que traz sofrimento especialmente para os indefesos. No entanto, o bardo vê a ingratidão como algo ainda mais cruel que o inverno. Como discordar, se ela nos apanha fragilizados, depois de longa luta, quando se está em meio aos dias mais frios?

Em todos esses casos de ingratidão e descaso, percebo que falta encarar o idoso como elo importante na transmissão do conhecimento. São bibliotecas vivas, fonte de saberes múltiplos: de acadêmicos especialistas a donas de casa que detêm o segredo de receitas familiares e histórias aprendidas com os antepassados.

Também é obrigatório lembrar que seus talentos não desaparecem porque o corpo está mais desgastado. Vou ficar num único exemplo: Falstaff, a ópera de Giuseppe Verdi, foi escrita quando o compositor tinha 80 anos de idade. É uma obra de fôlego, inventiva e grandiosa, em que Verdi revive o espírito da peça The Merry Wives of Windsor, de Shakespeare. Não são poucos os idosos – famosos e anônimos – que têm feitos semelhantes.

Na minha velhice espero ter respeitada a minha história, minhas conquistas intelectuais e a estrada que percorri. Enquanto estiver lúcida e não nomear formalmente alguém como meu porta-voz, significa que pretendo responder por mim. Em consultas médicas, compras, bancos e demais atos da vida, quero dar e receber as informações, tomar as decisões sobre moradia, alimentação, contas e tratamentos; quero discutir sobre o meu corpo, inclusive assuntos espinhosos como reanimação, cremação e doação de órgãos.Por isso já preparo um testamento e uma lista das minhas decisões acerca destes assuntos. A morte – etapa final desta jornada – jamais me intimidou. Olho para ela de maneira prática. Vai acontecer de qualquer forma: melhor estar preparada.

Se algum dia eu estiver demenciada, em coma, fora das minhas faculdades mentais, que abram minha lista e a cumpram. Será meu último ato de independência.

Até lá, espero que minha trajetória, meus sonhos e conquistas, minha sexualidade, meu trabalho, bens e opiniões sejam respeitados. Pode ser que eu deseje uma velhice contemplativa; mas talvez queira – como fez meu querido amigo Israel Quirino – começar um curso de sapateado aos 87 anos, a fim de imitar Fred Astaire. E não pretendo pedir autorização para as minhas escolhas. Não aceito menos que isso.

O envelhecer chegou para mim num piscar de olhos, como acontece com todos os humanos. De repente 20 anos e logo se está preso num corpo que começa a dar mostras de cansaço enquanto a cabeça ainda segue tão jovem e cheia de entusiasmo. Um fenômeno que Michel de Montaigne bem traduziu na frase “É uma pena que haja um intervalo tão pequeno entre o tempo em que somos muito jovens e o tempo em que somos muito velhos”.

Pena, caro Montaigne, é que o sortilégio das horas que partem e jamais voltam nós só descobrimos quando estamos na segunda metade da existência. Portanto, vale alertar os mais jovens: a sua hora também chegará. Envelhecer bem é uma arte, por certo. Mas é uma arte coletiva. Melhor aderir a ela agora, para que a roda da vida não o apanhe daqui a alguns anos exigindo no declínio a consciência que você não teve quando estava no auge.

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Texto: Sonia Zaghetto

Fotografia: Marna Clarke (http://www.marnaclarke.com/)