Por razões que não convém recordar, acordei com uma pedra aboletada no meu coração.

Não era pedra de rio, dessas redondas e polidas, com marcas de beijo de peixe e rastros de lesmas vadias. Não. Era uma pedra estrangeira, provavelmente extraterrestre. Nunca fora convidada, mas chegou-se sem aviso e lá se instalou, juro-lhes, como se estivesse em sua casa. Teve a audácia de fazer amizade com um dos meus filhos e se pôs a fofocar com gente da minha intimidade.

Os pássaros da vizinhança a farejavam em mim e corriam a se esconder no beiral e no mato.

Dei-lhes razão.

Assentada no centro do meu peito, a pedra pingava chuvas de folhas caducas, lamentos de coruja e flores de funeral. Diante do espelho, vi meus cabelos sujos e o rosto tomado por crostas.

– Vai embora, que não tenho paciência para ti.

Expulsei-a, mas voltava, daquele jeito que chegam as pedras, sem aviso, pois não andam. Caía-me sobre a carne, portanto. De repente. Sem aviso. De nada adiantava empurrá-la usando alavanca, pois era dada a desmentir Arquimedes. Desafiava meus mantras, ignorava o incenso que penetrava as narinas do mundo. Tossia, a cruel, rindo-se do meu desamparo.

– Sequer tens uma fé.

E eu, encolhida e nua, nada podia contra a pedra das asperezas.

– Por que não a hipnotizas? Sugeriu-me o amigo.

– Porque não se faz hipnose em pedras, ó atrasado.

Não sei por que a gente morde a mão de quem tenta ajudar, mesmo que com palpite errado.

E o dilema se agigantava.

Já quase no início da noite, a sacerdotisa de nossa aldeia veio à soleira de minha porta. Descalça, vestida de areia branca e um manto que tinha notas de sol. Olhei com certo temor os seus cabelos de corda antiga, já quase todos brancos, e vi o rosto cinzelado, os seus anéis de pedrinha.

Veio inteira, com ares de esfinge, fogo nos olhos, e me encontrou a duvidar do seu pote de feitiços.

Os lábios se abriram, pronunciando fórmulas quase esquecidas. Versos feitos de fumo cheiroso, rugir de tempestade, bênçãos de Oyá, novenas de dona Canô. Encantamentos sonoros cercaram a malvada pedra e lhe pingaram gotas de ácido e lava de vulcão. Derretia a perversa, mas, ardilosa, me implorava para ficar. Uma sonsa.

Em meio aos ruídos da noite, cantou a deusa. Seu corpo se moveu entre as estrelas e a voz de trovão rompeu de alto a baixo a barreira dos mundos. Sua cantiga punha bálsamos no leite dos peitos, ambrosia na língua dos homens. Soprou favos de misericórdia.

E diante dela espatifou-se a pedra do mal.

Chacoalharam os ossos dos poetas e de joelhos ficaram os que duvidam dos grandes mistérios.

Restou um silêncio.

Escrevo essa história na madrugada fria de uma terra estranha. Posso jurar que uma flauta de bambu soa ao longe, mas seu som ainda me é indistinto. Daqui a pouco acordarão os corvos e os pardais (não os beija-flores, pois estes migram no inverno). Vou colocar amendoins na minha sacada.

Espero atrair as aves e os esquilos.

Talvez cheguem arrepiados, com a desconfiança a lhes pular nas pálpebras, pois os bichos aprenderam a temer a espécie excêntrica que carrega pedras no peito.

Talvez os pássaros se aproximem, agora que não carrego peso algum. Penso que se me virem de cara lavada e os cabelos penteados queiram me convidar para conhecer seus ninhos, onde chocam ovos miúdos, ainda quentes dos corpos das mães.

Venham, corvos e pardaizinhos, venham ver meu estado de poesia. Estendam a ponta das asas e toquem esta estranha pluma azul que saltou do breu da noite e pousou no meu coração.