Esta semana, na série Abusadas – sobre pessoas vítimas de parceiros golpistas ou que cometem abusos físicos, psicológicos ou financeiros – o psiquiatra Guilherme Spadini faz uma reflexão sobre o ciúme, baseado no depoimento publicado aqui no blog na semana passada. Trata-se do relato contundente da mãe que enfrentou o drama de ver a filha adolescente se tornar presa de um namorado doentiamente ciumento e abusador (leia aqui o relato).

Ciúmes

O beware, my lord, of jealousy;
It is the green-eyed monster which doth mock the meat it feeds on.”

(William Shakespeare – Othello)

Guilherme Spadini

O monstro dos olhos verdes, descrito por Shakespeare, que brinca com a comida antes de devorá-la. É de fato uma comparação genial, retratar o ciúme como um gato. É um sentimento complexo e misterioso, cruel e natural. A comparação foi até retratada no mais shakespeareano dos filmes da Disney, O Rei Leão, quando o vilão é apresentado com seus intensos olhos verdes, brincando com um ratinho que pretende devorar.

Vai saber por que os gatos fazem isso, e eles o fazem. Como um instinto natural, deve ter algum valor adaptativo, e é um comportamento moralmente neutro, é claro. Mas é a perfeita imagem da crueldade, para nós, humanos. E é assim o ciúme. Ele vai nos rasgando de pouquinho em pouquinho, ferindo, provocando, sem nunca efetivamente nos deixar livre de suas garras. É um sentimento que escraviza.

O relato dessa semana me inspirou a falar sobre ciúmes. Mas vale lembrar que esse é só um recorte. A história mostra a evolução de uma relação monstruosa sob vários aspectos. O ciúme, no entanto, aparece no momento pivotal, quando tudo começa a se transformar de vinho em água, e serve para introduzirmos temas que poderão iluminar outros aspectos de futuras discussões.

Ciúme é normalmente descrito como uma insegurança, o medo de perder algo precioso. Digo “algo” porque nunca se poderia, de fato, perder alguém – já que nunca se tem a posse de alguém. E nisso já se revela uma das primeiras distorções do ciúme. O ciumento entende que tem medo de perder alguém, mas o que ele tem é medo de perder algo: status, conforto, validação, poder. O alvo do ciumento se torna um objeto, portanto – um índice, a materialização de algo que o ciumento não pode tolerar perder.

Entendido assim, ciúme não pode ter nada a ver com amor. Eu já comentei que em toda relação abusiva, em algum momento, a violência foi confundida com amor. Esse é um dos mecanismos mais básicos desse tipo de relação: algo que deveria ser absolutamente inaceitável é travestido de amor, de cuidado, de atenção, e é assim que, aos poucos, monstruosidades inimagináveis vão se tornando reais, frequentes e até banais.

A confusão entre ciúme e amor, ou cuidado, é generalizada em nossa cultura. É bastante comum que a falta de ciúme seja interpretada como falta de interesse. Perceber o ciúme do parceiro, ou parceira, tem um efeito tranquilizador – significa que a relação é valorizada. É compreensível que isso seja assim e, dentro de certos níveis de moderação, não é um problema grave.

Mas eu gostaria de destacar o quanto essa interpretação do ciúme é fundamentalmente errada, pelo que expus anteriormente. O ciúme é uma emoção direcionada a algo de importância para o ego do ciumento, e não para a pessoa amada. Como tal, não tem relação com o amor. A antítese do amor é o ego, e não o ódio. Quanto mais amamos, menos nos importam nossas próprias necessidades e inseguranças. O ciúme é sempre egoísta, não se engane. É algo muito próximo de um sentimento ilegítimo.

Digo muito próximo porque, em última instância, todo sentimento a que somos naturalmente predispostos é legítimo. E acho muito importante que tenhamos sempre uma atitude de compaixão com nossa natureza, com as muitas formas como somos frágeis, imperfeitos, e até um pouco loucos. Então, falar em um sentimento ilegítimo seria como apontar um erro inaceitável a ser extirpado de nossa natureza. Isso não faz sentido.

Mas reitero a descrição “muito próximo de um sentimento ilegítimo” para que possamos sempre, quando ele aparece, reconhecer sua natureza egoísta. E nos dedicarmos, com calma e afeto, a aprender a superá-lo.

Eu escrevi que ciúme é normalmente descrito como insegurança. E o analisamos assim até aqui. Mas não é só isso. Ele tem muitas outras facetas. Ciúme também é intemperança – o jorro, o vômito, o escape fétido de nossos instintos mais primitivos. É uma de suas facetas mais desagradáveis.

E, ainda, ciúme também é uma forma de poder. Isso é o que mais se evidencia no relato em questão.

Vejamos. Uma relação assim pode começar de forma bastante usual e inocente. No entanto, se o rapaz for tão inseguro e destemperado, pode ser que o ciúme se torne um sentimento obsessivo, de tal forma dominante, que crie uma relação de extrema hierarquia no casal. A sujeição da menina pode começar por ela interpretar o ciúme como amor, aceitando o “cuidado” que o rapaz demonstra com ela. Mas a relação acaba marcada de tal forma pela dominação, e objetificação da menina, que ficam abertas as portas para qualquer tipo de abuso. Basta, portanto, que a intemperança do rapaz seja tão pronunciada, tão livre das amarras morais que constituem o caráter de qualquer pessoa minimamente ajustada, que o horror se seguirá.

Mas também é possível, e algo que já observei em inúmeros casos, que o ciúme seja apenas um instrumento para a imposição de poder. No caso, o abusador já tem tal disposição de caráter que seu interesse em um relacionamento não tem nada a ver com amor, romantismo ou, sequer, pragmático companheirismo. O que o motiva, com maior ou menor grau de consciência, é o prazer advindo do poder, da submissão e sofrimento do outro. Nesses casos o ciúme se presta como instrumento perfeito, justamente por ser tão fácil confundí-lo com o amor. A vítima entende que tem de aceitar as imposições do abusador porque elas representariam a validação do vínculo entre eles. Enquanto o abusador, de novo, com variados graus de consciência, está apenas testando e forçando os limites de sua dominação sobre a vítima.

De qualquer forma, o que eu gostaria de deixar evidente nessa análise é que o ciúme é uma forma comum de introdução de venenos terríveis em um relacionamento. Ele abre a porta para a objetificação do outro, para um rígido desequilíbrio de poder, que pode resultar em relações que se tornam inadvertidamente, mas inequivocamente, abusivas. Pior, ele pode ser a porta de entrada para relações deliberadamente abusivas.

Por isso, tome muito cuidado ao considerar que um pouquinho de ciúme é legal, que é sinal de cuidado. Há muitas outras maneiras de se sentir amado(a) e validado(a) em uma relação. Perceber que entre vocês não há a menor necessidade de ciúme é uma das melhores delas.

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Pintura: Edvard Munch. Ciúme