Eu era menina quando a minha mãe me carregou à procissão do Senhor Morto. Era uma Sexta-Feira Santa e naqueles tempos se levava muito mais a sério essas coisas. Havia um burburinho que se queria silêncio e uns lutos de roupa e de coração.

– Vamos, que é a tua hora de beijar os pés do Senhor que morreu por ti.

Um Jesus Cristo coberto de tule jazia de olhos abertos e feridas nos joelhos e nas mãos. Eu, a contorcer-me de pena do pobrezinho, deitei a falar para minha mãe que iria sonhar com aquilo e que teria medo de Jesus. A minha mãe, que era mais católica que o Santo Padre, me empurrou para baixo, resmungando entredentes:

– Beije os pés de Jesus, ingrata.  

Não fosse Sexta-Feira Santa e seria muito pior, bem sei.

Pensei na estátua babada por outras bocas. Coloquei as mãos sobre os pés de Jesus, exatamente em cima do lugar que pintaram sangue escorrendo de um ferimento, e curvei-me. Beijei rapidamente a minha própria mão.

A minha mãe era muito boa e risonha (em todos os outros dias em que não cumpria o luto pelo Senhor, andava a contar histórias picantes, do Bocage, para filhos e netos), mas sua fé estava acima das vontades e medos tolos dos filhos. Na Quaresma, fazia orações e jejuns. Comia pouco na Sexta-Feira da Paixão. E só após as três da tarde. Olhava-nos com cara de desgosto se nos empanturrássemos enquanto Jesus agonizava. Não raro, comentava, ressentida:

– O pessoal antigo fazia jejum desde a Quinta-Feira Santa. Na Sexta-Feira, mal se bebia água. E ninguém dava um pio. Não se falava alto nem sorria. Quem quebrasse as regras levaria uma surra do sábado de aleluia.

Quando minha mãe dizia essas coisas, abria um portal para um outro tempo, que eu enxergava envolto em mormaço e no qual adivinhava dores silenciosas dos antepassados. Tinha por eles, os ancestrais, uma bem-querença inexplicável. Vontade de lhes levar à boca mingaus e cocadas para fazê-los felizes.

Minha mente encharcada de sol estranhava a sombra a se imiscuir na lembrança da minha herança portuguesa, mas compreendia as tramas subterrâneas que desaguaram no mar de salgadas lágrimas. A vida dos antigos havia sido árdua – dizia de mim para mim na minha pouca idade – e de imediato saía a sorrir como se nada de mais importante houvesse. E não havia.

A igreja, minha mãe e Jesus Cristo ficaram em alguma curva do caminho – lembranças queridas que compõem a riqueza da vida.

O problema das lembranças é que elas são dadas a aparecer sem pedir licença. Ontem (de tanto pensar no meu pobre país) rememorei tudo isso enquanto percorria ruas tomadas de sol.  É que me parecia este tempo atual uma prolongada Sexta-Feira Santa da minha infância. Tudo tão distante e, simultaneamente, presente.

No hoje, jasmins espocavam e me invadiam os sentidos com um perfume exibido. Eram como risos numa Sexta-Feira da Paixão.

Passei horas vendo abelhas, pássaros e esquilos naquela excitação que antecede a primavera. A minha mãe, que amava as flores, teria se deliciado com os narcisos que brotavam por toda parte. Talvez nem notasse que todas as árvores ainda estavam sem folhas e uma brisa gelada agitava o pelo dos esquilos.

No centro do parque, vi namorados numa rede. Traziam no colo um filhote de poodle branco e ouviam uma canção romântica asiática. Os pés se balançavam, soltos no ar e o som de risos dos vinte anos era maior que a canção.

Por alguma razão – dessas que a gente não explica – me ocorreu que Jesus Cristo e a minha mãe gostariam mais daquela cena que da procissão do Senhor Morto e de beijos enlutados.

Neste domingo, vou pôr um narciso nos cabelos e me embalar numa rede azul, compondo uma espécie de oração desajeitada pela terra que insiste em morar neste meu tolo coração. Será como passar os braços sobre os ombros de um amigo em lágrimas ou segurar-lhe as mãos. Como mingau e cocada oferecidos à boca dos amados quando choram.