O que define um relacionamento abusivo? Diz o dicionário que abuso é o uso incorreto ou ilegítimo, o uso excessivo ou imoderado de poderes; aquilo que se opõe aos bons usos e costumes. O caso de hoje – em comparação com outros narrados na série “Abusadas” – poderia ser interpretado “somente” como um mau relacionamento, igual a centenas encontrados nas Varas de Família. Este vai além.

É a história de uma mulher que foi provedora durante um largo período e, após ser explorada em seus recursos materiais por anos, foi sumariamente descartada. Um caso comum aos dois gêneros. Há milênios, homens e mulheres são vítimas de parceiros inescrupulosos, que traem sua confiança após se beneficiarem materialmente. Numa análise superficial, poder-se-ia dizer, portanto, que este é um caso típico de casamento que não deu certo e deixou como consequência um grupo de pessoas infelizes. A diferença fundamental, que o inclui na definição de abusivo, é o fato de mostrar alguém que, usando de seus poderes de sedução e envolvimento, aproveitou-se financeiramente de uma pessoa e, com atitudes cruéis e desrespeitosas, produziu sequelas emocionais, físicas e financeiras permanentes em todo o grupo familiar.

O relato de Suzana traz todos esses elementos. Após elevar o marido e ser a única provedora da família, foi abandonada com três filhos em circunstâncias desumanas. Renato, o marido – que passou a gravidez dela acusando-a de ter engordado demais – deu vários sinais sobre a natureza de seu caráter: gastava o dinheiro da mulher com supérfluos (a maioria roupas, sapatos e perfumes para si mesmo), vivia abandonando empregos; ostentava em redes sociais e festas um status que não possuía de fato; chegava tarde em casa, o sexo era raridade e as críticas à aparência da mulher se multiplicavam. Por amor, a companheira ignorava os indicativos.

Nada, porém, preparou Suzana para o que viria. O marido a abandonou na maternidade, no dia em que o filho caçula nasceu. Ao chegar em casa, Suzana soube que Renato tinha ido embora. Aos poucos, descobriu vários casos extraconjugais. Deprimida, viu o leite secar e carrega até hoje marcas profundas, assim como os filhos. Renato reconstruiu sua vida, mudou-se para a casa da nova parceira e em breve será pai novamente. Suzana se acha gorda e incapaz de iniciar um novo relacionamento.

O caso de Suzana está retratado aqui com uma pintura de Evelyn De Morgan sobre o mito grego de Ariadne. A história conta que Teseu foi mandado a Creta como sacrifício ao minotauro. Este habitava o labirinto construído por ordem do rei Minos. Seria devorado pelo monstro. Teseu consultou o Oráculo de Delfos para descobrir se sairia vitorioso. A pitonisa de Apolo lhe disse que deveria ser ajudado pelo amor para vencer o minotauro.

Ariadne, a filha do rei Minos, prometeu ajudar Teseu se ele a levasse a Atenas e se casassem. Teseu aceitou o trato. Ariadne, então, deu-lhe uma espada e um fio de lã (o famoso fio de Ariadne), para que ele pudesse marcar o caminho e encontrar a saída. Teseu matou o Minotauro e voltou à sua terra deixando uma desolada Ariadne para trás. O enorme sofrimento de Ariadne foi descrito na Teogonia, de Hesíodo.

Abaixo está a história e uma breve entrevista com Suzana, além de um texto do psiquiatra Guilherme Spadini sobre “Fraude de Romance”, relatado no capítulo da semana passada. O texto, entretanto, também se aplica parcialmente ao caso de hoje. O último parágrafo é revelador: “A destruição completa de qualquer ideal romântico, provavelmente, traria mais malefícios que benefícios à sociedade e ao indivíduo. Mas, os dados também não mentem. Precisamos repensar ideais de romantismo e pensamento mágico que são perpetuados na sociedade e que parecem afetar mulheres de forma desproporcional. Enquanto homens e mulheres, ambos, caem em fraudes de romance, há evidências de que as mulheres perdem mais dinheiro, e relatam mais sofrimento e maiores sequelas emocionais”.

Suzana e Renato

Suzana, 54 anos, é empresária e tem três filhos. Casou-se com Julio na década de 80. O casamento ia bem, tiveram uma filha e levavam uma vida confortável, na qual Suzana “não precisava” ter emprego. A separação veio quando ela tinha 30 anos: “Senti uma absurda sensação de fracasso com o término. Por mais que as pessoas falassem que eu estava bem, com um corpão, que era alegre e inteligente, eu me sentia mal”, revela.

Com um amiga, Suzana estruturou um negócio e conseguiu contrato com a Prefeitura da cidade. Era preciso contratar pessoas para o serviço. A amiga apresentou um candidato, Renato. “Ele era  dois anos mais jovem que eu, muito bonito e tinha fama de galinha. Estava desempregado. Na época tinha apenas um short, uma havaiana preta, duas camisetas e um carro velho, completamente detonado. Bom de lábia, carinhoso, educado e muito cheiroso”.

Atração imediata, começaram um relacionamento. Surgiu um processo seletivo e Suzana foi aprovada. Agora tinha um bom salário e a pensão da filha. Renato vivia tentando montar um negócio próprio e andava com uma pasta debaixo do braço. Nada além. O negócio não se concretizava e ele em momento algum falava em procurar emprego. Mesmo assim, gastava o dinheiro dela sem pudor. “No mercado, ele passava sempre pelo corredor das bebidas e das carnes nobres. Nos shoppings, comprava nas lojas masculinas mais caras. Tudo com meu cartão. Eu? Ah, eu amava. Às vezes pedia carro emprestado com um amigo para um passeio. Eu colocava gasolina, pagava a refeição, me sentia a tal”. Meses depois, Renato a pediu em casamento e Suzana aceitou. O noivo foi a uma joalheria renomada comprar as alianças. Pagou com o cartão da noiva. Casaram-se numa cerimônia simples, tendo como padrinho o amigo que emprestava o carro a Renato.

Suzana começou a cobrar que o marido buscasse um emprego. “Ele dizia que precisava ter roupas e sapatos melhores, que um bom relógio impressionaria o empregador. Eu pagava.”

Uma semana após o casamento, Suzana deu entrada em uma carta de crédito para comprar a casa em que morava. Renato contribuiu com R$ 1.000,00, da venda de um móvel. O marido começou uma campanha nova: para trabalhar em uma cidade vizinha, precisava de um carro. Mesmo que fosse um modelo popular, que eles também usariam para passear. “Comprei um carro sem saber dar nem uma ré”, conta Suzana.

O marido conseguiu o emprego na cidade vizinha. Nunca informou o valor do salário, mas dizia que era pouco. Suzana pagava alimentação, gasolina e as roupas caras para que ele participasse de eventos noturnos de divulgação. Ela o incentivou a fazer cursos de idiomas, essencial para a profissão dele. O marido não só desistiu do curso em três meses como logo largou o emprego.

Suzana engravidou. Um menino. Continuou a pagar todas as contas. Renato continuava a gastar, alegando precisar se apresentar bem para conseguir um emprego melhor. As festas de aniversário do filho eram planejadas por ele sem qualquer economia: dezenas de convidados, tudo de alto nível. Ela assinava os cheques. Quando questionava despesas, era rotulada de mesquinha.

Guarda roupa renovado, perfumado e motorizado, Renato cada vez mais chegava atrasado em casa. Dizia frequentar convenções e eventos do novo trabalho. Quanto mais eventos, menos sexo com Suzana.

“Eu ainda sonhava que poderia mudar o cara. Meses sem transar, um dia ele chegou mega atencioso, pediu o cartão emprestado para uma compra pois teria uma entrevista para um outro emprego. Transamos, e eu engravidei de novo, sem saber que ele tinha outra mulher”.

Durante a gravidez Renato mal falava com Suzana. Reclamava de tudo, especialmente que ela havia engordado. “Realmente, engordei 19kg. Tive dificuldades para comprar o enxoval do novo bebê e ouvi do meu marido que eu deveria me virar”.

Nada preparou Suzana para o que aconteceu em seguida. Ela entrou em trabalho de parto e Renato a levou ao hospital. Não ficou. Alegou um compromisso e a deixou sozinha. “Ali no hospital ele me largou, literalmente. Voltei para casa e não tinha uma peça de roupa dele. Agora tinha três filhos para cuidar. Perdi o leite”.

Sozinha, Suzana contratou uma babá e por três meses Renato vinha ver os filhos “em visita de médico”. Deprimida, emagrecia a olhos vistos. Pediu o divórcio. Renato começou a pagar uma pensão de um salário mínimo para os dois filhos. Alegava ganhar muito pouco.

Suzana registra até hoje uma sensação de solidão devido ao julgamento de quem conhecia sua história superficialmente. “Recebi pouca solidariedade. Os conhecidos preferiam me ver como a estressada, a ciumenta que não entendia o trabalho do marido”.

Após a separação, Suzana descobriu que o ex-marido tinha vários relacionamentos com outras mulheres. Renato continuou a ser um pai ausente e dado a pequenos golpes, como pedir afastamento do emprego para não ter de pagar a pensão. Não cultivou um relacionamento profundo com os filhos. “Quase nunca dá um presente. No Natal ele traz camisas que notoriamente ganhou em algum amigo oculto”, conta Suzana.

Hoje, a filha mais velha mora em outro país e diz que jamais terá filhos, pois “não quer ter a vida que a mãe teve”. O filho do meio se graduou em Publicidade e tem com o pai um relacionamento que, embora distante, é menos sofrido. O caçula tem mostrado sequelas psicológicas. A mãe se culpa por ele não se aproximar do pai: “Eu nunca os impedi de irem a alguma comemoração com o pai, deixava livre a decisão, mas sei que briguei muito, falei poucas e boas. Hoje eu acho que fui a culpada do menino ter esse distanciamento do pai. Ele detesta tudo o que o pai sugeriu que fizesse”.

Suzana não esconde a mágoa. Pelas redes sociais acompanha a nova vida do ex-marido: “O tempo todo vejo fotos de passeios e viagens para locais interessantes e caros. Em 25 anos como pai, levou os filhos em um único final de semana para passear na praia. No aniversário de dois anos de um dos meninos, preparei um bolo para comemorar. O pai chegou a tempo de posar para a foto e publicar no Facebook: “Meus filhos e eu”.

Renato casou novamente e mora na casa da nova parceira, que está grávida. Ele nunca quis assinar o documento para deixar a casa para os filhos de Suzana, embora ela tenha quitado sozinha o imóvel e ele tenha contribuído com apenas R$ 1 mil.

Seis perguntas para Suzana

P. Da sua história, o que você considera o pior momento?

R. O abandono na maternidade. A sensação de fracasso novamente me deu um soco enorme. Eu me achava uma porcaria de pessoa. Ao mesmo tempo, tinha um filho no colo. Olhava a carinha dele e era uma alegria triste. O leite não saia de jeito nenhum. Era a dor da cesariana e eu me fazendo de forte. Acho que foram os piores dias da minha vida. Sabe quando você quer gritar, chorar, se descabelar até cansar? Eu não pude.

P. Conte-me, por favor, como mudou o tratamento que seu marido lhe dava.

R. No começo, quando ele só tinha uma camiseta, tudo era motivo de carinho, de elogio. Cortava a grama da minha casa, planejava construir a churrasqueira, colocava aqueles apelidos que temos até vergonha de repetir. Havia sexo sem hora e palavras carinhosas para a minha filha. Mas na primeira festa junina em que fomos, minha irmã ouviu uns amigos dele comentarem algo na linha: pegou um combo, hein Renato? Como minha filha tem sobrenome famoso na nossa cidade, ele demonstrava ser um parceirão dela. No fim, já não tinha mais paciência com a criança. À medida que ele foi se aprumando, os gestos de carinho foram sumindo. Eu uso óculos, ao sairmos ele pedia: “Tem como você tirar os óculos?”. Eu olhava assustada ele dizia: “Brincadeira”.

P. E sua família? Sogra, mãe, irmãos, seus filhos…

Sou a única na família que tem emprego. Minhas irmãs tem os respectivos maridos como provedores. Minha sogra foi muito carinhosa com o primeiro neto (meu filho do meio), mas nunca me ouviu ou apoiou. Dizia que não poderia se envolver com os problemas do casal. Minha mãe mora em outra cidade e minha sensação de fracasso me impediu de chorar no colo dela.

P. Você recebeu ajuda no período da separação?

R. Minha filha, de 8 anos na época. À noite, ela me ajudava quando a babá ia embora e olhava o bebê enquanto eu fazia algo para nós. Tenho uma foto dela na maternidade, puxando o leite para ver se saía.

P. Você pensa em ter um novo relacionamento?

R. Vou te fazer uma confidência. Não tenho, não tive e nem imagino ter um relacionamento. Sempre acho que estou feia e gorda. Assim que apareceram os primeiros fios brancos, deixei. Eu gosto, mas acho que foi mais uma justificativa para não pensar em me arrumar e tentar encontrar alguém. Eu me sinto apagada. O tempo passou e eu me conformei. Ouvi tanto que eu era ciumenta, gordinha, que não entendia o marido, que desse jeito seria impossível ter alguém, que agora me afasto. Hoje desaprendi de paquerar. A minha vida é casa, trabalho, missa, casa. Tenho  pavor de pensar em tirar a roupa na frente de alguém. Lá no fundo eu queria ter tido a coragem de buscar um recomeço. Olho as amigas com parceiros e bate até uma inveja. Sentimento feio, mas as vezes bate.

P. Algum comentário final?

R. Às vezes as pessoas pensam que ser vítima de abuso vale somente para quem teve um fim trágico, mas é também o caso de quem conviveu com uma pessoa má. Só eu e Deus sabemos o quanto sofri e chorei. Eu espero que mais pessoas possam abrir suas histórias, pois são alentos e força para ação. Quanto for uma história de amor, eu te enviarei a dos meus pais. Fique com Deus, seu trabalho é fundamental. Esse projeto deveria ser matéria obrigatória nos colégios.

Fraude de Romance

Guilherme Spadini

O último texto da série Abusadas retratou três casos de fraude de romance – Romance Scam, como o termo tem sido consolidado na literatura científica internacional sobre o assunto. Pois é, existe produção científica a respeito. O que é ótimo, já que ficamos cheios de questionamentos ao ler sobre esses casos. Por que alguém faz isso? Por que alguém cai nisso? Como as vítimas não percebem?

Ainda não temos dados muito conclusivos para responder a todas essas questões. Os estudos ainda são poucos. Mas há muitas semelhanças entres as fraudes de romance e os casos de abuso e violência doméstica, e estes últimos são mais bem estudados.

Em ambos os casos, existe uma fase de “grooming” – termo difícil de traduzir diretamente, mas que teria o sentido de uma cuidadosa preparação, um processo de construir confiança e assegurar a dominação da vítima. Várias técnicas são utilizadas nesse processo. Alguns criminosos o fazem de forma instintiva – são atitudes que lhes vêm com naturalidade – de modo que todas as relações em que se envolvem repetem um padrão abusivo. Esses são mais comuns nos casos de violência doméstica, quando não há um ganho primário claro para o criminoso, apenas um padrão doentio de se relacionar.

Já nos casos das fraudes de romance, são mais comuns os criminosos conscientes, que dominam essas técnicas de forma premeditada, com a intenção de obter ganhos primários: extorquir dinheiro, influência ou escalada social.

São dois horrores bem diferentes, difícil dizer qual o pior. Os casos de violência física são mais raros nas fraudes de romance, e o foco das campanhas e estudos costuma ser a violência física. As vítimas, no entanto, frequentemente relatam que a violência psicológica é a pior. São maus tratos, humilhações, e a dor de tentar conciliar um mundo em que tudo isso parte de uma pessoa que se acredita que deveria amar.

Todos os tipos de fraudes se baseiam em algum relacionamento que garanta a confiança. Fraudes sempre dependeram de alguma ligação entre o criminoso e a vítima: família, círculo social, raça, cultura, religião. Com a internet começaram a surgir as fraudes por “força bruta”: já não era mais preciso encontrar a vítima ideal, bastava enviar milhões de e-mails que, estatisticamente, alguém haveria de cair.

Nas fraudes de romance, o relacionamento é construído com a finalidade específica de permitir o crime. Interessantemente, a internet também introduziu o romance por “força bruta”. Nas redes sociais, sites de relacionamento e aplicativos como o Tinder, não é mais necessário ter a sorte daquele encontro fortuito com alguém especial. Pode-se filtrar dezenas de pretendentes por hora. Estatisticamente, com alguém há de rolar.

Dessa forma, as duas primeiras fases da fraude de romance são muito facilitadas pela internet: Primeiro, precisa-se encontrar uma vítima muito motivada a encontrar o parceiro ideal. Segundo, precisa-se apresentar à vítima o perfil ideal. Pessoas sempre foram altamente motivadas a encontrar um parceiro, mas a internet tornou isso mais evidente do que nunca.

Depois disso, vem a fase de grooming. O criminoso estabelece sua imagem como um parceiro ideal, e depois passa a assegurar sua dominância através de diversas técnicas de desestabilização psicológica. Por exemplo, ele pode estimular o isolamento (afastar a vítima de amigos e familiares – “eles não entendem o quanto nossa relação é especial”), monopolizar a atenção e o cuidado, degradar a vítima (“ninguém jamais amaria você”), e fazer uso de expressões de afeto controladas, oferecidas apenas como recompensa pela submissão. Há vários mecanismos desse tipo descritos, inclusive induzir privação de sono, com ligações de madrugada por horas, tudo para dificultar que a vítima tome decisões racionais.

Depois, vem o momento em que alguma crise acontece. O criminoso diz que está no exterior e perdeu todo seu dinheiro, ou que precisa de uma quantia para advogados, para liberar uma muito maior, narrativas desse tipo. Quando o golpe funciona, é porque a vítima já está de tal forma enredada que não consegue mais evitar.

Só que, mesmo quando não funciona, a vítima perde muito. Perde o relacionamento que achava que tinha, e a dor psicológica pode ser, de novo, muito pior que a perda financeira.

Será que existe um perfil dessa vítima? Mais do que nos casos de violência doméstica, é comum o preconceito contra as vítimas de fraude de romance, como se elas fossem responsáveis por terem sido enganadas. Esse tipo de pensamento ignora o quanto somos todos frágeis e suscetíveis a várias formas de manipulação psicológica. Haja vista o sucesso do mercado de marketing – não só em nos vender produtos, mas até políticos – e dos algoritmos que nos controlam via celular.

Mas deve haver características pessoais que predisponham alguém a cair nesse tipo de golpe. Intuitivamente, imaginamos que a vítima deva ser muito romântica, ingenuamente romântica. Talvez muito solitária. Alguns traços de personalidade poderiam ajudar, por exemplo, pessoas muito abertas a experiência, com pouca aversão a riscos, ou com forte tendência a evitar conflitos. Talvez imaginemos, também, que a maior parte das vítimas seriam mulheres.

Um interessante estudo (Whitty, M. and Buchanan, T. (2012), The Psychology of the Online Dating Romance Scam. University of Leicester), no entanto, não encontrou evidências de que nenhuma dessas características aumente a chance de cair em um golpe de romance, exceto por uma: pontuação alta em escalas de Crenças Românticas. Pois é de novo. Existe uma escala científica para medir a intensidade do romantismo de uma pessoa.

A crença em ideais românticos tem sido associada a vários efeitos negativos, em estudos sobre violência doméstica, particularmente. De modo geral, altos níveis de romantismo estão associados a maior probabilidade de relacionamentos abusivos, e maior dificuldade em reconhecer padrões abusivos, e em sair desse tipo de relacionamento. Crenças românticas também se associam à ideia de que ciúmes pode ser um sinal de amor, como discuti em meu último texto nessa série.

É importante considerar esses dados com moderação. A destruição completa de qualquer ideal romântico, provavelmente, traria mais malefícios que benefícios à sociedade e ao indivíduo. Mas, os dados também não mentem. Precisamos repensar ideais de romantismo e pensamento mágico que são perpetuados na sociedade e que parecem afetar mulheres de forma desproporcional. Enquanto homens e mulheres, ambos, caem em fraudes de romance, há evidências de que as mulheres perdem mais dinheiro, e relatam mais sofrimento e maiores sequelas emocionais.

Pintura: Ariadne em Naxos, de Evelyn De Morgan. 1877