Abusadas é uma série sobre pessoas vítimas de abusos físicos, psicológicos e golpes financeiros por parte de parceiros. Os autores são a escritora Sonia Zaghetto e o psiquiatra Guilherme Spadini. A série deve se tornar um livro em 2022. No capítulo desta semana, trouxemos uma série de reportagens publicadas pelos veículos de comunicação sobre pessoas vítimas de parceiros inescrupulosos ou golpistas disfarçados de futuros namorados. Estão após o artigo principal, assinado por Guilherme Spadini, e que se refere à invisibilidade imposta pela sociedade aos relacionamentos abusivos, uma prática que só beneficia o abusador.

O anel de Gyges

Guilherme Spadini

Há uma curiosa história mitológica em um dos textos fundamentais da Filosofia, “A República”, de Platão. Trata-se da história do anel de Gyges. Os personagens estão conversando sobre o sentido da Justiça, e um deles, Glaucon, com uma visão provocadora e moderna sobre o ser humano, conta a história de um pastor que encontra uma abertura no solo após um terremoto. Explorando o interior da fenda ele vê várias maravilhas, dentre elas um enorme cavalo de bronze, com portas que lhe permitem a entrada. E dentro do misterioso veículo de metal, jazia um corpo de estatura sobre-humana, portando nada mais que um anel. O pastor pega o anel, e descobre que ele lhe dá o poder de ficar invisível. O que um homem faria com tal poder? Segundo Glaucon, o pastor fez o que qualquer pessoa faria. Na primeira chance que teve de adentrar o palácio do rei, ele usou o poder do anel para seduzir a rainha, matar o rei e tomar todo o reino.

O argumento de Glaucon é que nós só nos preocupamos em agir de forma justa porque assim somos exigidos pela sociedade, punidos ou recompensados de acordo. Mas que, se pudéssemos agir com total impunidade, como Gyges, nós faríamos sempre o que melhor nos conviesse. Agir de forma injusta seria, pois, a atitude natural, óbvia, se não houvesse um incentivo social ao contrário.

A história lembra, muito imediatamente, o clássico de Tolkien, o Senhor dos Anéis. Quando um anel mágico de invisibilidade é encontrado, ele vai, aos poucos, corrompendo não só o portador, mas o mundo, ameaçando toda a ordem social. Em Tolkien a simbologia é clara, mas a correspondência temática fica mais abstrata. Em outro clássico, porém, “O Homem Invisível”, de H. G. Wells, o tema está de novo claramente ilustrado. A invisibilidade leva o protagonista à loucura. Uma alegoria de como o poder e a impunidade podem corromper. Ou, segundo Glaucon, apenas revelar nossa verdadeira natureza. O Homem Invisível serviu de inspiração a inúmeras outras obras e adaptações. O filme “Hollow Man”, de 2000, com Kevin Bacon, dirigido por Paul Verhoeven, retrata uma cena impactante em que o homem invisível ataca sexualmente uma mulher que lhe despertou desejo. Invisível, impunível, com o poder de agir sem consequências, por que não abusar dele? Outro filme recente, “The Invisible Man”, de 2020, com Elisabeth Moss, dirigido por Leigh Whannell, carrega no terror sangrento, mas trata diretamente o tema dos relacionamentos abusivos. Violência, controle, gaslighting – o quanto do terror vivido por mulheres abusadas não vem da invisibilidade do abuso e da total impunidade do abusador?

O último relato da série “Abusadas” trouxe o tema da invisibilidade. Na poesia do piano invisível. Mas também na invisibilidade do abusador, e do abuso, totalmente transparentes à família, aos amigos, à sociedade como um todo. Falamos muito sobre a invisibilidade das vítimas, claro e justo. Mas é preciso enxergar o invisível presente em todos os aspectos dessas histórias. Eu diria, até, que a invisibilidade das vítimas acontece para manter a invisibilidade do abuso. Para manter o abusador invisível e inconsequente. Nesse sentido, é um efeito secundário. O principal não é esconder a vítima – esconde-se a vítima para esconder o monstro. Quantas distorções trágicas, – quanto sofrimento! –  Somos capazes de provocar e tolerar, para não enxergar uma realidade monstruosa?

A resposta de Sócrates ao argumento de Glaucon é difícil de resumir. Trata-se de praticamente todo o corpo d’A República. Mas, resumindo-a brutalmente, Sócrates faz um paralelo entre como devemos organizar nossas mentes (almas), nosso mundo interno, de acordo com como organizaríamos uma sociedade boa para se viver. É um artifício, mas que conversa com o argumento moderno de que não existe o ser humano selvagem. O que somos, muito íntima e essencialmente, é o que somos enquanto imersos em cultura e sociedade. Ou seja, o homem que age de forma injusta, porque não vai ser punido, pode escapar às consequências sociais, mas não escapa das consequências internas, já que elas representam uma vivência comum. Não escapa da loucura, da tristeza, do vazio de viver tiranizado por seus próprios desejos. Desta forma, a justiça deveria ser perseguida como um fim em si mesmo, porque nos traz uma vida melhor e mais equilibrada, e não só pelas consequências sociais (status e evitar punições). É o argumento da “alma tirânica”, de o quanto ela é nefasta não só para a sociedade, mas também para o indivíduo.

Eu acho esse argumento central à questão do abuso em relacionamentos. O homem, especialmente – o indivíduo do gênero masculino – frequentemente se encontra nessa posição de poder. Por ser, muitas vezes, fisicamente mais forte. Por ser protegido pela invisibilidade que a sociedade impõe ao abuso. Por ter essa capa de impunidade, de invulnerabilidade, de inconsequência de que se revestem essas situações íntimas. O homem de alma tirânica não tem muitos incentivos ao bom comportamento. Não tem por que refrear seus instintos. Nada vai lhe acontecer. Exceto, como lembraria Sócrates, que a alma tirânica tem duas vítimas. O abusador, também, tiraniza as melhores partes de sua alma, completamente subjugadas pelos mais vis, primitivos e indulgentes aspectos de si mesmo.               Não escrevo isso para estimular a pena ou o perdão – embora sejam sentimentos caridosos contra os quais jamais lutarei. Mas para reforçar a fraqueza dessa posição. Não tem nada de força, de poder, de afirmação. Tem apenas covardia, pequenez e tristeza. E um trágico retrato de o quanto temos perdido, como sociedade, a noção de que o significa ser um homem.

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Ilustração: Oleg Shuplyak