“Meu nome é Regina, tenho 57 anos e sou divorciada. A minha é uma história de superação. Para me resgatar, fui até o fundo do poço da existência. Ao emergir, trouxe comigo o que hoje considero dois tesouros: consciência e autoamor. Antes, eu era a mulher que tinha parceiros que eu julgava amar. Não um amor saudável e bom, mas algo obscuro e triste, confuso e submisso. Eu achava que amava, mas apenas me deixava explorar, por ter medo da solidão e do julgamento alheio.

Ainda criança, perdi minha mãe. Foi devastador, uma dor que me revirava por dentro. Com ela, perdi o chão, as referências, o norte. A ausência materna me fez conhecer, precocemente, um repertório de palavras indesejáveis: solidão, desamparo, agonia, pavor, abandono, tristeza, melancolia, nostalgia. Também foi decisiva para que eu desenvolvesse uma enorme necessidade de cuidar dos outros. Abandonei as bonecas para prestar atenção nos adultos. “Sentia” que eles precisavam de mim e, ao assumir essa função de cuidadora, ocultava as minhas próprias dores.

Meu pai era difícil e sua conduta abateu minha autoestima ainda na adolescência. O sonho de ter minha independência chegou cedo; bem antes da hora. Era algo paradoxal: eu queria me libertar, mas me sentia culpada e envergonhada por ter tais sentimentos. Os parentes e amigos me viam como uma menina forte. Eu não era: apenas me empenhava para provar aos outros uma fortaleza inexistente.

Levei essa atitude para os meus relacionamentos amorosos. A maioria dos homens que eu escolhia enfrentava dificuldades econômicas ou de relacionamento. Eu supria as necessidades e exigências deles em ambos os aspectos. Meu instinto maternal é visível; muito evidente. Creio que isso os atraía. Tive várias relações abusivas desse tipo. Uma após a outra, num padrão de comportamento repetitivo.

Nunca sofri violência física. Porém, as agressões psicológicas foram muitas. Vários desses parceiros se aproximaram posando como o “homem dos sonhos”. Assim como outras mulheres, das carentes às “bem-resolvidas”, eu acreditei. Logo os parceiros mostravam sua verdadeira face.

O primeiro desses parceiros eu conheci na adolescência. Tivemos uns namoricos e perdemos o contato. Reapareceu anos depois. Começamos a namorar. Eu trabalhava, morava sozinha e ele, sem emprego ou formação profissional, foi se instalando no meu apartamento.

Aos poucos revelou o seu passado: tinha casado duas vezes. Do primeiro relacionamento tinha um filho, com deficiência mental, abandonado pela mãe e criado pelos avós paternos, muito pobres. Sobre o segundo filho, fruto de um casamento com outra mulher, só me contou muito tempo depois.

Passei a cuidar do filho dele. A criança, de 8 anos de idade, tinha o desenvolvimento bastante comprometido e sequer haviam feito um diagnóstico do problema. Assumi a busca por profissionais especializados e passei a levar o menino semanalmente ao terapeuta, além de custear o tratamento. O pai passou a trazê-lo inicialmente para ficar na minha casa nos finais de semana. Passei a vesti-lo melhor, oferecer lanches que nunca havia comido, levar a passeios que não estava acostumado. Dava atenção e carinho. Não demorou e o pai transferiu para mim todas as despesas e responsabilidades pelo menino. Fiquei sobrecarregada física, emocional e financeiramente. Isso durou anos, até eu me dar conta de que estava sendo explorada.

Os demais relacionamentos repetiram esse padrão, alguns com situações de forte violência psicológica. Percebi, aos poucos, que facilmente passava por cima dos meus limites e do que me desagradava. Literalmente, pagava todos os preços para não ficar sozinha. Nem sempre estava apaixonada ou cega de amor. É que eu não conseguia viver na minha própria companhia. Ficar comigo era mais insuportável do que ser explorada por alguém.

Acredito, por experiência própria, que é mais difícil enxergar os aproveitadores do que os golpistas ou os autores de agressões físicas. Estes, mais cedo ou mais tarde, são pegos: os hematomas e as contas bancárias das vítimas denunciam. Já nas situações em que a pessoa é explorada financeiramente ou abusada emocionalmente, raramente é levada a sério. Os aproveitadores se camuflam. Até que sejam desmascarados, vizinhos, familiares e mesmo amigos íntimos consideram as queixas como conflitos “normais” num relacionamento ou até interpretam como mentiras e exageros.

As marcas emocionais costumam ser conhecidas apenas pelas vítimas – principalmente se estas transmitem uma imagem de força ou quando possuem autonomia financeira, como é o meu caso. Só recentemente aprendi a mostrar minhas vulnerabilidades e pontos frágeis.

O fato de eu me fingir de forte não só piorava a percepção alheia, mas por vezes também prejudicava a minha capacidade de avaliação. Em algumas ocasiões, quando alguém tentava me alertar de que eu vivia um relacionamento abusivo, dei desculpas e mostrei os aspectos positivos da pessoa e da relação. Creio que quem passa por este tipo de situação não gosta ou tem dificuldade de admitir que vive uma farsa. Muito menos quer que alguém o faça por você.

Depois de alguns relacionamentos desse tipo, cheguei à exaustão. Não foi fácil enxergar e admitir a minha contribuição na repetição dos casos. Eu passava por uma mistura de sentimentos. Ora negava, ora me rebelava. Sentia-me meio amada, meio explorada. As partes negativas eu fazia de conta que não me incomodavam tanto. Eu praticava o autoengano. Era mais cômodo para mim do que encarar e resolver meus problemas emocionais.

Hoje avalio que a gente se engana imaginando que há um “ganho” nesse tipo de relação. De certa maneira eu acreditava que, ao me submeter a situações de exploração, tinha nas mãos o controle do relacionamento. Enquanto dependesse de mim, o parceiro não iria embora e eu não ficaria sozinha. Era uma forma de não me expor em uma sociedade que ainda vê como bem-sucedida a mulher que tem um homem ao lado dela.

A maior armadilha que caí foi a de não acreditar que poderia ser feliz sozinha. Apesar da aparência de força e independência, eu queria um parceiro. Não me bastava ser uma mulher bem resolvida profissional e financeiramente.

Ir em busca de terapia e de autoconhecimento não foi uma escolha minha. Tive uma severa e longa crise de pânico. Fui levada pela minha irmã para buscar ajuda médica e psicanalítica. Em pleno tratamento, entrei em novas relações abusivas. Eu simplesmente não conseguia me desvencilhar. Creio que ter consciência é um grande passo, mas é preciso resgatar a autoestima, o amor-próprio, pois só a consciência não gera potência. Ela é o começo.

Eu saía de um relacionamento e, na semana seguinte, já estava em outro. Foram cinco relações assim. Finalmente, fui ao fundo do poço em decorrência do divórcio de um parceiro que eu imaginei eterno. Lá no fundo da lama é que acordei de verdade para as situações em que eu me permitia entrar (e até buscava) para me sentir viva e bem-aceita.

Neste momento ocorreu um dos episódios mais dolorosos da minha vida: a minha internação. Eu não fui forçada. Meus familiares acharam que era o melhor a fazer. Eu estava tão deprimida que não tinha forças para parar em pé, quanto mais refletir ou argumentar.

Embora tenha sido uma experiência muito penosa, algo em mim despertou para que eu não me revoltasse e buscasse aprender com a situação. Hoje, passados quatro anos, consigo falar sobre o ocorrido.

Fiquei internada por quatro meses. Naquele lugar onde vi tantas piorarem, usei a experiência para me libertar. Sofri e vi o inacreditável. Os banheiros não tinham privada, eram tipo fossa turca. Em vez de chuveiro nos enfiavam debaixo de um cano de água fria e mal nos deixavam molhar os cabelos. Dormíamos em macas azuis, sem lençóis, ouvindo os gritos das outras mulheres. A comida era péssima e só melhorava aos domingos, quando a família chegava para as visitas. Aí mudava-se todo o cenário. Eu dizia para a minha família sobre o tratamento desumano e ninguém acreditava.

Havia, claro, portadoras de transtornos mentais, mas conheci mulheres sãs cujos parceiros eram responsáveis por interná-las. A história delas me serve até hoje como exemplo de resistência e coragem na adversidade.

Nunca quis contar essas coisas ao meu filho. Ele é muito jovem. O que será da saúde mental dele se souber de algo assim? Na única vez que ele foi lá na clínica me visitar, eu me esforcei pra disfarçar aquela realidade.

Apesar de tudo, eu me vejo como privilegiada por ter tido condições de me tratar. Após a internação, com apoio terapêutico, eu me reergui.

Pela primeira vez, estou sozinha há alguns anos e consigo viver em paz comigo mesma. O que não fiz em tanto tempo, consegui neste período de pandemia: mudanças em vários outros aspectos da minha vida. Paradoxalmente, quando a existência de todo mundo parou, a minha andou.

Ainda quero um amor, um companheiro, mas não a qualquer preço”.

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Abusadas é uma série sobre pessoas vítimas de abusos físicos, psicológicos e golpes financeiros por parte de parceiros. Os autores são a escritora Sonia Zaghetto e o psiquiatra Guilherme Spadini. A série deve se tornar um livro em 2022.

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Pintura: Frida Kahlo, Autorretrato com colar de espinhos e beija-flor, 1940