Certo mesmo é que o meu país me dói.

Dói como ferida aberta,

mas também como algo antigo, que me devora por dentro e me faz ter febres nas madrugadas insones.

O meu país existe em mim há tanto tempo

Figura materna, cálido seio, acalanto quando a noite vem.

E, no entanto, me põe pedras a pesar sobre o peito,

e me envolve numa espécie de nevoeiro.

Sigo (pois nada mais me resta) equilibrando o passo entre a esperança que cultivo e uma agonia indesejada; entre o gosto ancestral e esse travo amargo que agora trago na boca.

No meu país vivem os meus amados. É o que os ameaça.

Já não posso pensar no meu país sem que me venham uns suores.

Isso é tão incômodo!

Tento sussurrar promessas ao meu coração;

embalo-o e canto-lhe canções de ninar.

Ato-lhe fitas verdes e digo-lhe para aguardar por mais um momento.

Só mais um instante.

Vai passar, garanto-lhe.

Ele não acredita

(eu também duvido)

Insisto.

Para de rugir descompassado, cessa de uivar quando surge a noite, arranca esse arame farpado que te cerca.

Mergulha nos teus livros, redescobre as tuas doçuras, veste as tuas roupinhas de domingo.

Olha que algo brilha no fundo deste poço. É a quietude.

Desenha no teu caderno os contornos da alegria perdida

Ergue o teu queixo, veste esta armadura sobre a seda que te cobre.

Lembra da tua natureza indomável, da firmeza da tua mão sobre o leme do teu navio.

Confia em ti, e só em ti, nesta travessia.

***

Foto: Calu Blyth