Para Vinicius, no dia do seu aniversário, e para Maria Balé

“Arrume a sua casa todos os dias mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela e reconhecer nela o seu lugar”. (Lena Gino)

Ando dedicada a ofício novo: uma apreciação muito exata das coisas mínimas e um artesanato do meu cotidiano. Cada detalhe da minha vida desimportante me fascina e encanta. Retiro pequenezas da estante da simplicidade e as elevo, novos ídolos, ao altar das divindades recém-nascidas. Lá permanecem, dourados instantes, a me confortar na paisagem cinza destes dias longos.

A poesia que enxergo nos meus ritos e acontecimentos diários me comove a ponto de eu desejar narrá-los, como se fossem um filme, um roteiro premiado que a outro também pudesse prender na mesma espiral de contemplação. Ponho-os, com alguma cerimônia, na caixa onde guardo a coleção de minhas raridades afetivas. Joias da rotina e riqueza de banalidades.

O aroma do café é a minha primeira prece. Fecho os olhos de prazer. Passo a manteiga bem devagar sobre a fatia dourada, vendo-a derreter e mergulhar na carne macia do pão. Tomo café da varanda, com uma brisa fria a me revirar os cabelos. Na árvore, que dois meses atrás estava nua, folhas muito verdes atraem pássaros. Cantam, piam, talvez riam o riso secreto das aves.

Daqui a pouco, sem pressa, vou cozinhar. Arrumo, um a um, as verduras e os legumes. Corto-os como se estivesse sendo filmada para um programa de culinária. Tudo em slow motion, coreografado. A faca amolada desliza pelas batatas, cenouras e cogumelos. Douro a cebola na frigideira e a cozinha se enche de cheiros. Lembro da minha mãe ensinando a retirar as cascas das batatas, finas como asas de libélulas. Pequenos quadrados perfeitamente cortados são arrumados no cestinho de bambu e cozinham no vapor. Os brócolis são verde-brilhantes, as couves-flores muito brancas. Arrumo-os religiosamente na tigela, onde encontram o vermelho suculento dos tomates e algumas folhas verdes. O azeite se deita sobre eles. Acomodados juntos, os presentes da Terra.

Não consigo evitar o sentimento de gratidão por poder comer. Nada caro, nada requintado. Apenas uma salada, que eu encaro como um algo sagrado, um hino aos dias.

Depois vou cuidar da roupa do meu filho. Não sou obrigada, ele nem pede. Mas quero fazer. O ferro de passar percorre as fibras e alisa as rugas. Desliza entre botões e golas, lentamente. Dobro as roupas ainda quentes e sinto vontade de encostá-las no rosto. Perfumadas. Cheiro de lavanda. Observo a pilha, impecável. Vai cobrir o corpo do filho no trabalho do dia seguinte. Outro dia ele me mandou flores. Assim, de repente, como forma de retribuir. Não precisava, mas me pôs um sol nos olhos.

Lembro a todo instante dos filhos que tive, da sua morada temporária no meu corpo. Enquanto lá estiveram, escutaram meu coração ansioso, decoraram o ritmo do meu respirar. Filhos, que compartilharam o corpo comigo, que cantiga sagrada me inebria por saber que lhes servi a taça do meu sangue mais nobre, tecendo-lhes os fios da pele que os cobre, doando-lhes o sumo da vida que se converteu em ossos, músculos, tendões e nervos. Um corpo emergiu do meu. E nele havia uma multidão de sonhos, uma inteligência aguda, um ser humano pronto a iniciar a jornada pelo mundo. Cada gravidez me fez visceralmente ligada ao grande ciclo da existência. E essa não é experiência que se esqueça com facilidade, a não ser que falte a conexão viva com a natureza. Penso essas coisas e meu peito se enche de fogos de artifício, numa explosão de tremenda graça.

A tarde me traz um sol ardente, beija-flores no jardim, livros que sussurram histórias, vozes de poetas que já se foram. Estou sozinha como um iceberg a flutuar na imensidão líquida. O que de mim se vê é um mínimo, como deve ser. Minha solidão sempre esteve aqui. Ela é anterior ao confinamento – uma boa amiga que nunca me incomoda.

Não ouso reclamar num mundo em que há gente lutando por um pouco de ar e outros que encaram desemprego, perda de amados e fome.

Bebo água. Ela desce pela garganta, aplacando um mundo de vontades do corpo.

Minha oração da noite é a sopa simples, receita de minha mãezinha. Mas quem eu vejo a cozinhar é o meu pai, juntando seus legumes, acrescentando temperos. Cheiros do meu passado encerram o dia.

Lavo as louças com muito cuidado e as guardo no armário. O chão da cozinha está limpo.

Aqui estou eu, preparando a hora do sono. A noite veio, delicadamente, cobrir tudo com seu cobertor escuro. Pouco antes, no Facebook, um amigo perguntou: o que ainda falta fazer? Respondi: nada. É verdade. Nada mesmo. Se a morte chegasse amanhã, me encontraria como o poeta: de casa limpa, a mesa arrumada, uma xícara de chá nas mãos e a serenidade perante o ato final de toda vida. Alô, iniludível.

Meu último pensamento é fazer um balanço do dia. Eu me perdoo. E aos outros. Fecho os olhos. Será assim no meu último instante? Quem sabe? Uma noite chegando em suavidade, uma sensação de ter cumprido tudo o que deveria ser feito, da melhor forma que pude. Sempre fico meio filosófica à medida que o dia termina, assim como nos meses finais do ano ou quando o inverno chega.

Os pássaros silenciam, esquilos se recolhem às árvores. Tudo adormece comigo.

**

Pintura: Claude Monet. Camille Monet e o filho no jardim do artista em Argenteuil.

Serra do luar (de Walter Franco). Leila Pinheiro.