In the rising sun
You can feel your life begin
Universe at play inside your DNA
You’re a billion years old today

(George Harrison. Rising sun)

Eu ia escrever um texto para dizer que falhei esta semana, que falei mais do que devia, que não me dei conta de que uns amados estão mais frágeis do que eu imaginava.

Eu ia fazer um texto cheio de imagens literárias que espelhavam meu esforço incessante para manter a minha paz de espírito; o combate ao sentimento de perda e ansiedade que ameaça a mim e a todos nós; a luta diária contra a vaga sensação de tristeza e algum medo que esses tempos infiltram na gente.

Mas lembrei de algo que me foi ensinado há muito tempo: é preciso experienciar a vida em sua totalidade, encarando os momentos de sombra como aprendizados preciosos. Mesmo quando somos nós quem fere, é preciso agradecer por isso. É um alerta para redobrar a atenção, ficar mais atento e sensível, saber a hora de reconhecer um erro e de buscar a reparação.

Hoje já não dou importância ao mal que me fazem. Passado o susto inicial e o controle de danos, a vida segue. A condenação dos atos alheios não me interessa. O que dispara os meus alarmes é o que faço e que atinge outros seres humanos – mesmo que seja algo involuntário. Recebo isso como lição de humildade, um chamado de atenção para os detalhes, especialmente o tempo e o modo de se dizer as coisas. Do outro lado (do corpo e da tela) estão seres que atravessam grandes lutas e poderão entender mensagens de modo diverso da intenção original.

Estar consciente é a minha meta. Um mergulho profundo e realista em mim. Sinto que preciso estar bem desperta para mapear situações, retirar espinhos cravados na carne e me pôr de volta a um estado de equilíbrio, sagrado espaço onde se realiza a serenidade.

Acho bom e útil quando a gente se dá conta agudamente do quanto é frágil, falível, imperfeito. Põe as coisas em seus devidos lugares. Pensar sobre isso me evoca o tempo em que aprendi a andar na neve. Alguém aconselhou: “Não relaxe jamais. Preste atenção o tempo todo. Quando você achar que não vai cair, a queda acontecerá”. Não importa quanto tempo passe, é necessário estar sempre atenta ao caminho coberto de gelo.

Eu ia escrever um texto para consolar a mim e a outros. Mas o dia amanheceu tão bonito hoje…

Ao abrir a janela, não havia sol. A fumaça dos incêndios cobria o azul. Entre cinzas flutuantes e um vento frio que sopra nas manhãs, notei um céu cor de chumbo e uma poeira fina sobre as folhas.

Eu disse que o dia estava bonito? Está sim. Não lá fora, onde nada controlo, mas aqui, no calor do meu peito que ainda se agita descompassado por causa da tempestade recente. Um sol dourado nasceu em mim. E não vai se pôr tão cedo. Aqui, nesse minúsculo universo, sou a divindade bailarina que regula a temperatura, faz brotar todas as flores e distribui perdão – a si e aos outros.

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Foto: Raimundo Paccó