Ontem, eu olhava o pôr do sol nesta terra incendiada. Havia fuligem a flutuar, junto com um cheiro de coisas perdidas. Estava tão distraída que nem te vi chegar, de mãos dadas com os sons do mar.

Estendemos uma toalha – dessas de piquenique – sobre o gramado. E comemos doces, lambendo os dedos, rindo de coisas tolas.

Inventamos uma felicidade simples, que cabe no corpo.

Na falta de um balão de ar quente, viajamos de bolha de sabão. Em via expressa.

Tomamos café num lugar calmo, falando banalidades. Uma borboleta pousou na ponta do teu nariz.

Lembrei do dia em que te vi pela primeira vez. Tudo parecia vestido de beleza no mundo, como se as coisas todas dançassem e o vento cantasse algo delicado no ouvido das flores.

Desde então, quando estamos juntos, o verão é eterno e aparecem na natureza uns Fernandos Pessoas disfarçados de brisa que se entrelaça nos cabelos das árvores.

A tua presença traz de volta o céu clarinho e conserta o que está quebrado. Como naquele dia em que tentamos dançar na cozinha. Eu não sabia dançar, nem você – éramos crianças. Mas, você me abraçou e dançamos sem pisar o chão, enquanto tudo o mais silenciava.

Volta amanhã? No terreno colorido da minha imaginação, há uma portinhola azul. Ela se abre para um jardim, com piano, pote de mel e aves raras.

É lá que vou te esperar.

Traz contigo o teu melhor riso (aquele vermelho, com listrinhas amarelas) e enfeita a tua voz com esse laço de açúcar.

Não atrasa, por favor.

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Pierre-Auguste Renoir – No Jardim (1885).