Quando cheguei ao mundo, as finas mãos de minha mãe puseram alfazema nas vestes que me cobriram. Estendidas no varal, haviam recebido beijos do sol e das brisas da tarde. Quem sabe se o primeiro aroma que percebi, quando tudo ainda era névoa, tenha sido a mistura do cheiro de minha mãe, leite, sabão, alfazema e beijos de sol e de vento? Um perfume que impregnou na minha alma iniciante a fantasia das roupas limpas que dançam nos quintais e ditam o ritmo da vida.

Cresci vendo as roupas lavadas a me acenarem, ternas. Fantasmas bons flutuando entre árvores no calor dos dias, às vezes vestidos de festa, às vezes tingidos de sobriedade.

Minha avó Ricardina era lavadeira das boas. Esfregava as roupas do marido e as punha no quarador feito de garrafas. Depois de banhadas em água fresca, secavam à sombra e eram engomadas com o pesado ferro a carvão. O orgulho de minha avó era a perfeição do vinco e a absoluta ausência de manchas. Vovô saía a desfilar pela rua o uniforme da Marinha, branco, imaculado, fazendo par com a beleza da pele muito preta. Roupa e homem brilhavam. Ela sorria.

Quase posso vê-la a lavar a roupa dos filhos na bacia prateada. Anil, goma, sabão. Tudo cheirava a limpeza nas mãos de minha avó. Lembro dela com um amor tão grande e profundo. Vontade de beijar seus olhos cegos e os seus cabelos, leves fiapos de neve. Ela tem lugar sagrado em mim: acolheu minha mãe como se fosse filha, deu-lhe um amor inesperado e puro. Isso deve ressoar pelos séculos da memória familiar – é a promessa que me faço. Guardo-a, ainda hoje, roupa clara, em gavetas que são também altar e jardim.

Veio o tempo – tecelão de sonhos – e eu me vi a lavar as roupas de alguém que chegava. Perfumadas com alfazema. Fiz isso em três momentos. Espuma branca e a descoberta de um amor inigualável misturavam-se nas águas da tina. Na quarta vez que recebi um filho, o perfume estava no meu coração que repetia o gesto de minha avó. Tão rápido esticaram as pequenas roupas coloridas. Mal as notei ocupando mais espaço no quintal. Quando me dei conta, eram roupas de adultos a acenarem adeuses. Sinto falta delas e do cheiro insubstituível de um filho ausente. Há quatro lugares vazios nas cordas firmes que estendi. É o rumo da existência, bem sei. Não me queixo. São lindas as peças que agora vivem em outros quintais.

Mais tarde, vi vestes vergarem os varais, escuras e chorosas, quando minha mãe e meu pai se tornaram saudade. Delas pingavam gotas que não eram de chuva. Lembravam-me de um tempo perdido em que as tempestades se juntavam no céu e todos corriam a recolher as roupas, salvando-as do desastre. Viver, repito docemente para o meu coração partido, é conformar-se por não conseguir impedir as tormentas que derrubam veneráveis árvores. Criei então um mundo particular, no quintal das nuvens, onde anjos estendem túnicas translúcidas e cantam para embalar o sono dos que muito amei.

Veio novamente o tempo – desfazedor de juventude – e me flagrou, distraída, espiando flores que brotavam em áspero chão. Era uma tarde calma e o sol atravessava as folhas das árvores, desenhando pontos de luz na grama. Havia silêncios profundos e palavras de amor não ditas enquanto eu estendia roupas num quintal que foi meu por pouco tempo. Roupas simples, de alguém muito amado. Fiquei a olhá-las por um longo instante.

Agitados por mãos invisíveis, os poemas de tecido me falaram de doces promessas, de frutas colhidas no pé e de um tempo quase impossível, no qual a felicidade brotava a cada respiração da natureza. Puseram no meu coração uns sonhos que insistem em reviver quando surge a aurora, a deusa de dedos cor-de-rosa que inaugura o dia.


Texto: Sonia Zaghetto

Canção: Le linge de nos mères. Amélie les Crayons

Galeria: Fotografias de Denise Marino e pintura de Andrew Wyeth, Laundry Day