Estou diante do mar e há uma festa de azuis no vestido longo das águas. Fecho os olhos devagar, os cílios descendo suavemente até encerrar toda a luz. Os outros sentidos se aguçam. A brisa do Pacífico, as vozes das aves marinhas, um gosto de sal na boca, a areia sob as minhas mãos e pés. Então, acontece de novo: volto a me ver como um barco solto em meio às ondas. Pequeno, sim, mas não frágil. Não há fragilidade no meu peito quando navego neste mar revolto que é viver.

Navego firme desde que descobri que não sou apenas o barco. Sou também o mar, o céu, os bichos que vivem debaixo das águas. Diante das tempestades, posso escolher se as ondas que me cercam serão ameaçadoras ou se navegarei em placidez e calmaria.

Nenhum monstro – real ou imaginário – que viva nas profundezas pode me ameaçar se eu não o carregar no meu próprio coração. Sem a força do meu sangue a alimentá-los, serão apenas fantasmas pálidos, débeis.

Com um gesto de mão, posso afastar nuvens pesadas e ver cada uma das estrelas no céu claro.

Ao deus desconhecido que vive nos meus devaneios só peço que me guarde em estado de lucidez, para que eu não me perca de mim.

Porque sou só. E sempre o serei, por mais que esteja em meio a multidões.

Solidão, solidão, que imenso mistério há em ti. E poder. Eu te bendigo quando te encontro. Tu me estendes a proteção de algo tão grande e me abres quartos secretos onde vejo sombras que dançam. Memórias, amores, sonhos partidos, aniversários, vozes risonhas, lágrimas de saudade  – uma coleção de conchas nas quais ouço o barulho do mar embora nelas o mar já não esteja.

As asas da solitude me envolvem, cariciosas. Ninguém me vê ou perturba. Posso ser eu mesma, a desfrutar da plenitude que vive no coração da natureza.

Aprendi há muito que um silêncio sagrado habita a alma dos homens e de todas as coisas. Aproximo-me dele pisando na ponta dos pés. Tiro os sapatos e me deito junto, pronta a desfrutar de um tempo impossível de traduzir.

É só neste mar de silêncios que consigo existir.  Nele, me chegam as palavras que escrevo, como brisa doce ou um beijo do infinito. Também é nesse espaço de paz que percebo o universo vivo a pulsar no meu corpo. Bilhões de mecanismos e células trabalhando a coreografia da vida. Docemente, sem descanso. Ondas que vão e vêm, engrenagens perfeitas a me manter no mundo.

Meus olhos se enchem de água igualmente salgada. Tudo me comove no poema vivo do cosmos microscópico, povoado de estrelas, que navega pelo meu corpo.

Tão belo é o instante, tão solene e grandioso, que me põe muda. E só, então, descubro que jamais estarei só, de fato. Meu pequeno mundo seguirá comigo até o fim. Quando tudo o mais me faltar, estaremos juntos na jornada. Voltaremos devagar à natureza, porto seguro que nos vai acolher e transformar em seiva de árvore, espinha de peixe, néctar de flor, cores na penugem dos pássaros.  

Abro os olhos, sem pressa alguma. A claridade da tarde me ofusca por alguns segundos. Há muita luz no mundo – do sol incendiando o céu, das células convertidas em lampadazinhas, dos corpos alheios que também contêm galáxias.  

Um barco, ao longe, atravessa as ondas. Seguro, solitário.

Sorrio.


Pintura: Herbert James Draper. A ilha de Calipso.

Hino do Querubim. Piotr Tchaikovsky