Por Sonia Zaghetto

O que você vai ler:

  • Bactéria ameaça a principal fonte de alimento e renda de dez mil indígenas do Oiapoque
  • Medo da fome leva tensão a 66 aldeias
  • Secretário de Desenvolvimento Rural fala em crise alimentar e sanitária
  • Problema pode levar anos para ser completamente resolvido
  • Falta de recursos humanos e financeiros agrava a crise
  • O que é a doença que afeta as plantações
  • O que já foi feito
  • O que falta ser feito
  • Galeria de fotos

Oiapoque – Uma bactéria extremamente agressiva dizimou mais de 80% das plantações de mandioca amarela em áreas indígenas do município de Oiapoque, no Amapá. A severidade do problema que atingiu a principal fonte de alimento e renda de aproximadamente dez mil indígenas dos povos Karipuna, Palikur, Galibi Marworno e Galibi Kali’na levou o governo amapaense a comprar cestas básicas para as famílias e a decretar estado de emergência no Estado, com a implantação de barreiras sanitárias.

Além da bactéria, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) no Amapá identificou a presença de três espécies de fungos fitopatogênicos nas amostras de plantas, de manivas-semente (estacas) e da raiz da mandioca. Esses fungos ocorrem naturalmente no solo e têm potencial para atacar as plantações de mandioca, mas a verdadeira responsável pela destruição das plantas é a bactéria. “Trata-se de um fitoplasma, uma bactéria atípica, e que age muito rápido. Ela suplanta os fungos e produz o superbrotamento, uma doença que ataca os vasos condutores das plantas e a parte superior das hastes, produzindo um efeito de “envassouramento”. Em seguida a planta seca inteiramente”, afirma Adilson Lima, pesquisador da Embrapa Amapá.

A velocidade com que a praga está se expandindo também preocupa. Além de destruir a quase totalidade das roças de mandioca nos 1,2 mil hectares de plantações nas terras indígenas de cinco regiões (Urukawá, Curipi, Uaçá, rio Oiapoque e BR-156), há  notícias de a doença ter atingido roças na Guiana Francesa, em outros três municípios amapaenses, além da região do Cassiporé e o povoado Carnot, a 374 quilômetros de Macapá, a capital do Estado.

Cacique José Elito, da Aldeia Manga. Foto: Elza Lima.

Embora não ofereça risco direto à saúde humana, a bactéria trouxe prejuízos graves ao ameaçar a segurança alimentar e atingir em cheio a principal fonte de renda dos povos indígenas do Oiapoque.

Nas aldeias, há preocupação e medo. Alimento primário, a mandioca está presente em todas as refeições. Além disso, a comercialização do tubérculo e de seus subprodutos (farinha, tapioca, goma e tucupi) garante o sustento financeiro da comunidade indígena. Responsáveis pela maior parte da  produção de mandioca no Amapá, os agricultores indígenas abasteciam de farinha o município de Oiapoque e a vizinha cidade francesa de Saint-Georges.

Desde março, um grupo de trabalho formado por diversas instituições busca uma solução. Após o diagnóstico feito pela Embrapa, o governo do Amapá decretou uma série de  medidas emergenciais. Entre elas, adquirir 75 toneladas de farinha de mandioca para suprir a necessidade imediata de alimento nas aldeias; a implantação de medidas sanitárias para conter o avanço da bactéria e a compra de 125  mil manivas-semente mais resistentes que estão sendo cultivadas em campos experimentais pela Embrapa e serão multiplicadas nas áreas indígenas entre dezembro de 2023 e janeiro de 2024.

Em paralelo, serão necessárias pesquisas para identificar o vetor e a forma de contaminação das plantações, o que resultará em um prazo bastante dilatado para a solução definitiva do problema.

“De uma hora para outra começaram a morrer todas as plantações. Já recorremos às três  esferas de governo: federal, estadual e municipal. O nosso povo está muito triste, porque a roça é tudo para nós: é alimento e é todo o nosso sustento”, afirma o cacique Edmilson dos Santos Oliveira, coordenador do Conselho dos Caciques dos Povos Indígenas do Oiapoque (CCPIO).

“A gente nunca tinha passado por isso e hoje estamos nessa situação difícil. A gente era fornecedor de farinha para o Oiapoque e para a Guiana Francesa e hoje estamos comprando farinha do Pará para abastecer as nossas aldeias. E o preço está muito alto, um absurdo”, relata Oliveira.

Segundo o cacique, já há famílias indígenas que estão sem farinha de mandioca. “É com essa renda que nós compramos os nossos mantimentos. É triste falar disso. A comunidade está muito preocupada e a todo momento eles perguntam para as lideranças: “Cacique, o que vai acontecer com a gente? Nos ajude! Por isso em Brasília pedimos ajuda emergencial, cestas básicas para as famílias que dependiam inteiramente da roça e não têm recursos para comprar alimentos”, relata.

*Sonia Zaghetto é jornalista e escritora, autora do livro História de Oiapoque, publicado em 2019 pelo Senado Federal.

Barco da comunidade Kumenê chega ao Oiapoque para vender farinha de mandioca. Foto: Sonia Zaghetto/2019.

Medo da fome leva tensão às aldeias

Aldeia Manga, Oiapoque – O colapso da produção de mandioca espalhou medo e angústia entre as 1.800 famílias que vivem em 66 aldeias localizadas nas terras indígenas Uaçá, Galibi e Juminã, no Oiapoque.

Wagner Karipuna mostra galhos de mandioca destruídos na aldeia Manga. Foto: Manoel Neto.

“Infelizmente agora não temos mais roça. Morreu tudo. Estamos pedindo ajuda”, diz o cacique José Elito dos Santos, da aldeia Manga, localizada no km 18 da rodovia BR-156, que liga o Oiapoque a Macapá. Na aldeia, que fica às margens do rio Curipi, vivem 1.243 pessoas. 

“Jamais passamos por isso. Estamos sofrendo. Há muita tristeza e medo”, conta Wagner Karipuna, enquanto mostra os galhos ressequidos de mandioca, que se quebram facilmente. Ele revela que o impacto emocional é muito grande. “Já temos pessoas passando necessidade e precisando de muitas coisas. Alguns de nós não estão nem mais se alimentando”, lamenta.

Nas aldeias mais longínquas, como a do Kumarumã, nem os indígenas cadastrados no Bolsa Família estão livres de preocupação. Os 600 reais que recebem não são suficientes para garantir a compra de farinha e outros mantimentos vendidos na cidade. A passagem de ida e volta até o Oiapoque  consome R$ 200,00, uma vez que a aldeia está localizada a cinco horas de barco.  Oiapoque é uma cidade de preços elevados. Além do isolamento que impacta o preço do transporte de mercadorias, o custo de vida é diretamente afetado pela presença de guianenses e franceses que optam por fazer suas compras no Brasil – pagando em euro e inflacionando o mercado local.

“É o nosso meio de vida. Eu me emociono. Hoje vejo a situação do meu povo: famílias abatidas por não ter a farinha, o nosso alimento principal. Tivemos várias reuniões, inclusive em Brasília, mas não temos ainda uma resposta certa. A gente ora muito para ter de volta a nossa roça como era antes”, relata Wagner Karipuna.

Secretário de Desenvolvimento Rural fala em crise de segurança alimentar

Macapá – “Estamos diante de uma crise sanitária e de segurança alimentar”. A afirmação é do secretário de Desenvolvimento Rural do Amapá, Kelson Vaz, sobre a praga que destruiu a produção de mandioca nas áreas indígenas do Oiapoque.

Plantação de mandioca contaminada. Foto: Adilson Lima/Embrapa.

Vaz observa que se está diante de três  desafios: “O primeiro é administrativo. Temos urgência em burlar a burocracia. O segundo é agronômico e o terceiro é cultural, pois a solução inclui respeitar a cultura indígena”.

Segundo Vaz, o problema nas roças de mandioca já vinha ocorrendo há pelo menos cinco anos, de forma pontual, mas registrou um agravamento desde 2019. Em março deste ano, atingiu o ápice. Os técnicos da Embrapa acreditam que as chuvas excessivas do ano anterior podem ter tido sua parcela de contribuição. “Uma hipótese é que as queimas das roças não foram suficientes para eliminar os fungos que existem na terra. Também não produziram cinzas suficientes para fertilizar o solo. A planta já nasceu fragilizada. Essa deficiência nutricional pode ter potencializado o problema”, afirma Adilson Lima.

“Emergencialmente, o Amapá vai entregar, no dia 22 de agosto, 1.800 cestas básicas para evitar uma crise alimentar. Ao mesmo tempo, adquiriu manivas-semente mais resistentes e decretou uma série de medidas sanitárias recomendadas pela Embrapa”, informa Vaz.

De acordo com o secretário, o governo do Amapá aguarda a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) liberar 75 toneladas de farinha de mandioca pedidas em caráter emergencial para serem distribuídas nas aldeias.

Os novos cultivares, mais resistentes, foram implantados em 12 hectares de campos experimentais. A previsão é que, com a multiplicação, sejam produzidas manivas-semente suficientes para 120 hectares.

As manivas-semente adquiridas no Pará –  geneticamente melhores, mais resistentes e com maior capacidade de produção – serão multiplicadas e plantadas em dezessete áreas indígenas entre dezembro deste ano e janeiro de 2024. Calcula-se que essas sementes deverão produzir 170 toneladas de raízes destinadas à produção de farinha.

Problema pode levar anos para ser completamente resolvido

Macapá – A solução definitiva para o problema que atinge as roças de mandioca no Amapá poderá demorar entre dois e cinco anos. O pesquisador Adilson Lima, da Embrapa, afirma que a volta à normalidade exige um planejamento contínuo e a criação de uma força-tarefa com a participação de várias esferas de governo.   

“Estamos diante de um problema sério. A solução não é simples. É necessário estabelecer um programa continuado de produção e consolidar um trabalho conjunto. Sozinhos, a Embrapa e o governo do Amapá não conseguirão resolver a questão em seus vários aspectos”, afirma.

Um exemplo é a compra de 125 mil manivas-semente pelo governo do Amapá. Mais resistentes, elas estão sendo cultivadas em dois campos experimentais no Estado e serão plantadas em áreas indígenas do Oiapoque. Como o ciclo da mandioca é de aproximadamente doze meses, as sementes plantadas só estarão prontas para colheita no começo de 2025. Até lá, será necessário suprir as aldeias com tubérculos e a farinha de mandioca.

Além disso, a área em que serão plantadas as sementes é bastante pequena em comparação com a atual. As 125 mil manivas-semente implantadas em campos experimentais totalizam 12 hectares. Multiplicadas, deverão cobrir 120 ha, já que um hectare plantado gera material para mais dez. Não é suficiente.

Segundo o IBGE, atualmente há 1.774  hectares de plantações de mandioca no Oiapoque. Desse total, aproximadamente 70% estão em área indígena, o que corresponde a 1,2 mil hectares. “Em resumo, no primeiro ano, apenas 10% das roças terão recebido as novas manivas-semente. É preciso, a cada ano, aumentar o quantitativo de área plantada”, observa o pesquisador.

Por fim, embora as manivas-semente sejam material sadio, nada garante que este será imune à doença. “Ainda não temos material comprovadamente resistente a essa bactéria. Por essa razão, a Embrapa recomenda que as novas roças sejam plantadas em locais completamente livres de contaminação”, explica Lima.

Falta de recursos humanos e financeiros agrava a crise

Macapá – A crise sanitária e de segurança alimentar que atinge os povos indígenas do Oiapoque esbarra em um crônico problema brasileiro: a falta de recursos humanos e financeiros que, no setor público, impede soluções em curto prazo.

As 75 toneladas de farinha de mandioca que o governo do Amapá tenta obter junto à Conab deverão durar apenas um mês e não se sabe quando serão liberadas e a data em que chegarão às aldeias. O atual cenário aponta que a compra de alimentos para as aldeias indígenas deverá se estender por no mínimo quinze meses. Segundo o secretário de Desenvolvimento Rural do Amapá, Kelson Vaz, o governo amapaense tem negociado preços para a compra por todo esse período.

A solução emergencial foi comprar 1.800 cestas básicas e distribuir entre as famílias indígenas a partir do dia 22 de agosto.  

Paralelamente, os pesquisadores da Embrapa terão de identificar o DNA da bactéria que atingiu as plantações, o que inclui um acurado trabalho de biologia molecular. Estima-se que somente essa fase demore mais de dois anos, uma vez que o Brasil tem poucos especialistas na área. Para efeito de comparação, a bactéria é bastante semelhante à greening, que atingiu plantações de cítricos no Brasil. A milionária indústria de sucos rapidamente contratou técnicos que identificaram a bactéria e seu vetor. Um cenário bastante diferente do que se encontra no Amapá.

Outra frente que exigirá atenção é a identificação do vetor. Suspeita-se de um inseto, mas será necessário um tempo longo para examinar todas as possibilidades e comprovar a forma como a bactéria chega às plantações.

Até que se estabeleça o caminho da  contaminação, serão necessárias medidas sanitárias preventivas rigorosas, como vigilância das plantas, controle de pragas  e  limpeza de facões e de calçados. Tudo isso representa uma radical mudança cultural para os povos indígenas, cujos hábitos de cultivo estão consolidados.

Além das técnicas agronômicas,  sobretudo para produção de manivas-semente de qualidade comprovada, a Embrapa deverá fazer a capacitação de multiplicadores indígenas, a pedido do Conselho dos Caciques dos Povos Indígenas do Oiapoque (CCPIO) e da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).

Na Embrapa, o fitopatologista Adilson Lima e o analista Jackson de Araújo dos Santos informam que as medidas recomendadas pela Embrapa exigirão um cuidado extra a fim de respeitar a cultura dos indígenas, cuja agricultura é orgânica, sem uso de qualquer defensivo químico. 

O secretário de Desenvolvimento Rural do Amapá, Kelson Vaz, concorda: “Temos de respeitar o tempo deles e estabelecer diálogos. Não vamos tomar decisões aqui na capital sem ouvir os povos indígenas”, garante.

Como os indígenas usam a mandioca?

Oiapoque – Aporte econômico, componente cultural e base alimentar, a mandioca é essencial para os povos indígenas do norte do Brasil. Seu consumo está de tal forma consolidado que resultou em completa incorporação à alimentação cotidiana da população não indígena da Amazônia.

Mulher da comunidade quilombola Curiaú, no Amapá, faz a torrefação da farinha de mandioca. O alimento é essencial para o nortista. Foto: Sonia Zaghetto. 2019.

É um alimento tão importante que diversas lendas de origem indígena explicam o surgimento da mandioca. Embora haja variações, quase todas as narrativas remetem para uma planta que nasce miraculosamente no local em que foi sepultada uma garota (Mani) e se converte em dádiva da natureza aos seres humanos.

A farinha de mandioca (também chamada de farinha d´água) é consumida acompanhando peixe, feijão, carnes, aves e até açaí. Está presente nas refeições do amazônida como o feijão e o arroz na mesa do brasileiro.

Nas feiras livres e mercados da região amazônica, a farinha de mandioca é comercializada em abundância e com grande variedade de espessura, intensidade da torrefação e cor.

Dela também se faz o chibé, um alimento no qual é misturada à água e por vezes açúcar; e o caribé, no qual a farinha bem fina é usada para fazer um uma espécie de mingau salgado, muito usado por doentes em recuperação.

Da mandioca se faz, ainda, a farinha de tapioca, se extrai o tucupi (um líquido amarelo usado na culinária) e a chamada “goma”, base dos beijus, da tapioquinha e do tacacá.

O tubérculo também é a base do caxixi, bebida fermentada tradicional e servida na festa do Turé, realizada anualmente no Oiapoque.

O que é a doença que destroi as plantações de mandioca

O fitoplasma, uma bactéria atípica (sem paredes celulares) pode inviabilizar completamente as plantações de mandioca. Ela sobrevive na planta e no vetor, que ainda é desconhecido.  O microorganismo atinge o floema, uma espécie de vaso condutor de proteínas que fica no caule da planta. Alojado nesse local, impede que a planta se alimente. Ela seca até morrer.

Imagem mostra o escurecimento dos vasos condutores das hastes infectadas, Foto: Adilson Lima/Embrapa.

O que está sendo feito

As medidas recomendadas pela Embrapa incluem a queima total dos roçados e a rotatividade de culturas (no local  das atuais roças deverão ser plantadas novas espécies, como melancia, banana etc.).

As futuras roças de mandioca devem ser feitas em áreas distantes das atuais e vão receber tratamento especial a fim de estarem livres de contaminação e adequadamente preparadas para receber as manivas-semente.

O governo amapaense decretou, em 20 de julho, situação de emergência no Estado. Na semana passada implantou barreiras sanitárias na rodovia BR-156 (que liga o Oiapoque à capital, Macapá) e adquiriu 1.800 cestas básicas que deverão chegar às aldeias no dia 20 de agosto.

O que falta ser feito

O governo do Amapá ainda está negociando acordos que garantam o fornecimento de farinha de mandioca para as aldeias indígenas por quinze meses, no mínimo, tempo em que a nova safra poderá ser colhida.

A Embrapa deverá iniciar trabalhos de biologia molecular para analisar o DNA da bactéria e identificar o vetor.

A Conab, via Assessoria de Imprensa, respondeu sobre a compra da farinha de mandioca para abastecer as aldeias: “A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e o governo do estado do Amapá ainda estão em diálogo para alinhar todos os processos para a aquisição, respeitando as questões legais (incluindo as exigências sanitárias – uma vez que a farinha é um produto processado) e definindo como se dará o apoio logístico para a distribuição do produto. A compra só será realizada pela Companhia, com recursos do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), a partir do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) na modalidade Compra com Doação Simultânea (CDS), após a definição de todos os pontos”.