Nunca fora tão devota. Nem parecia aquela Ritinha de antigamente, com a saia curta oscilando entre o inferno e o paraíso, descendo as ladeiras da cidade como quem vai colocar fogo no mundo ou fazer revolução.

Agora era um tal de fazer sinal da cruz a todo instante, à missa de domingo não faltava e era certo colocar esmola gorda na caixinha. Dizem até que quisera lavar os pés dos mendigos na Semana Santa, mas o João Loureiro não deixou. Achou exagero. “Você tem que ver que agora já não é mais Ritinha. É Maria Rita, minha mulher e dona da única farmácia de Vila Mirim. Nós temos uma posição na sociedade, filha”.

Ritinha odiava as duas coisas: quando ele a chamava de Maria Rita ou de “filha”.

“Já disse que não gosto, João. Sou tua mulher e não tua filha. Sei lá. Fico com esse ‘filha’ rolando na minha cabeça e isso me tira o jeito quando, de noite, você vem cafungar no meu pescoço, todo cheio das ideias. Sinto como se fosse meu pai se aprochegando. Deus me livre!”.

Já Maria Rita a irritava por outras razões. Mostrava uma tal falta de intimidade que a deixava macambúzia. Ma-cam-bú-zia. Aprendeu essa palavra com a professora de Português, dona Celina, ainda na adolescência, e nunca mais a largou. Era sua palavra talismã.

“Quando a gente está macambúzio, parece que virou aquelas conchas que, por saudade e muita tristeza, reproduzem o som do mar de onde vieram. Macambúzio é banzo de búzio!”, teorizava a Ritinha.

Macambúzia ela ficava agora quando lembrava do tempo em que descia as ladeiras aos sábados, de tamanquinho e minissaia, indiferente ao sentimento geral de cobiça. Ia deixando uns pescoços torcidos de tanto olhar, mas só queria mesmo chegar na quadra da escola antes do samba começar.

Aí era um deus-nos-acuda, um ai-jesus, um valha-me meu anjo da guarda. Não dava para tirar o olho. Ritinha dominava a arte de rebolar o quadril. E que quadril, senhores! Nem Michelangelo esculpiria algo parecido. Uma perfeição que sempre aumentava a fila de confissões no dia seguinte. Padre Rozendo nem ligava mais. Já havia padronizado dez Ave-Marias e três Pai-Nossos para quem fosse confessar inveja, luxúria e violações do nono mandamento.

Desde os dezessete anos, Ritinha era noiva do João Loureiro. Melhor partido da cidade, o farmacêutico estava sempre vestido de personagem de Jorge Amado: terno de linho branco, chapéu impecável à cabeça, ligeiramente inclinado para dar um charme.

O pai dela não fez gosto.

“Meio engomado esse teu pretendente, Ritinha. Parece aquele tipo de gente que não arrota. Ah, e se enganou de século, né? Precisa atualizar o guarda-roupa”. Ritinha ria. Sabia que longe dela o pai substituiria o arroto por outras funções fisiológicas.

A mãe da moça ficou encantada. Uma semana depois do namoro começar, já estava fazendo planos para o futuro. Via a filha exuberante entrando na farmácia e dando ordens ao empregado. E a lua de mel? Paraty, por certo. Uma vez havia ido a Paraty e achou adorável.

João Loureiro compartilhava o entusiasmo da futura sogra.

“Ah, vamos passear de charrete em meio ao casario, Maria Rita! Tem charrete em Paraty, tenho certeza.”

O pai da Ritinha balançava a cabeça e resmungava entredentes: “Ah, que maravilha, agora ele volta no tempo de uma vez. Dê lembranças a D. Pedro II, senhor marquês”.

A felicidade do casal só foi ameaçada quando D. Amália, a mãe do farmacêutico, chegou da capital e desaprovou a novidade.

“Com tanta moça mais ajuizada, meu filho, e você escolhe logo essa aí, que usa uns vestidos e umas sainhas que não cobrem nada. A cidade inteira já viu o teu parque de diversões”.

“Viu mas não comprou ingresso. Aquele bilhete ali é só meu”. João, filho sem defeitos, ficou irredutível desta vez.

D. Amália se conformou.

O casamento ocorreu num sábado à noite no Lions Clube da cidade. A noiva estava linda, o noivo discretamente feliz. D. Amália chorava de desgosto e a mãe de Ritinha de alívio: casara a menina.

Os meses seguintes foram leves. João dirigia os negócios, Ritinha comandava a casa e às 5 da tarde entrava pontualmente na farmácia, vestido à altura do joelho, para buscar o marido. Iam à sorveteria e passeavam de mãos dadas. A cidade inteira comentava o quanto eram bonitos juntos.

Até que começou a devoção inesperada da Ritinha. Na igreja, liderava a novena, puxava as rezas e até encomendou mantilha, toda bordada.

Andava mesmo mudada a mulher do João. Cabeça baixa, macambúzia. Deu de visitar doentes no hospital. Aliás, já não saía de lá. Um verdadeiro anjo, a distribuir medicamentos aos pobrezinhos, a passar toalhas na testa dos sofridos.

“Um exemplo, uma santa! Sem ela, o doutor Carlos, novo médico da cidade, jamais daria conta de tanta gente doente”, era a voz em uníssono. Ritinha nada dizia. Só o pai achava tudo aquilo muito esquisito.

Numa terça-feira da Novena de Nossa Senhora, Ritinha irrompeu na sacristia e atirou-se aos pés do Padre Rozendo.

“Ai, Padre, me socorra, que o demônio quer a minha alma!”. Iniciou uma confissão, ali mesmo na sacristia, abraçada aos joelhos do sacerdote.

Uma hora depois ainda soluçava, enquanto o velhinho lhe estendia os últimos lenços de papel: “O senhor entende que me falta o ar, padre?”. O velhinho sacudiu a cabeça, penalizado.

Quis dizer a ela que aquilo passaria, que era coisa do diabo, sempre espreitando a felicidade das almas mais amadas pelo Senhor, mas, ao abrir a boca, falou com uma simplicidade que até a ele surpreendeu.

“Vá ser feliz do seu jeito, minha filha. Deus não quer a infelicidade de ninguém”.

“Mas e o João? Ele será infeliz.”

Padre Rozendo mal ouvia. Estava em outra época, com outra jovem mulher, vendo um amor profundo se desfazer diante do seu coração em frangalhos. Voltou-se para ela e disse, com a sabedoria que os 80 anos dão aos homens: “Ele viverá. O posto de primeira dama da Farmacotécnica não vai ficar vazio por muito tempo. Não fique… como é mesmo aquela palavra que você gosta de dizer? Ah, sim, macambúzia. Não fique macambúzia. Isso faz mal pro fígado e para alma também. No céu não tem macambúzios, apesar da propaganda”.

Na semana seguinte o escândalo se alastrou por Vila Mirim. D. Amália, triunfante, consolava o filho; a mãe de Ritinha se recuperava em uma estação de águas e o pai dela ria-se no bar: “Ora, ora, aposto que o doutor Carlos jamais a chamou de Maria Rita”.

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Ilustração: Emiliano Di Cavalcanti. Mulata.