Foi num dia azedo e nublado que comprou um caderno de contabilidade emocional.
Anotava tudo, atento aos débitos: o telefonema que não veio, a resposta curta (ele jurava que era áspera), o amigo que recusou o convite, a falha do filho.
Esqueceu que pessoas são distraídas, dias são corridos e o tempo fugidio.
No começo, não era assim. Só queria estar junto. O afeto era simples, bastava rir na mesma hora, dividir um doce, jogar conversa fora. Não havia necessidade de prova, nem expectativa de retorno exato.
Mas comprou o tal caderno. Parecia inofensivo. Servia para anotar pequenas decepções. Rabiscos passageiros. Não sabia que minúsculas coisas também pesam.
Deu de ser exigente, desconfiado, ressentido. Queria garantias. Exigia explicações. Desejava ser amado com método, precisão, compromisso firmado em cartório (em duas vias, só para garantir).
Tornou-se pesado, embora não tivesse engordado. Trazia o caderno aboletado no peito.
Parentes e amigos, que desgostavam de coisas pesadas, começaram a desaparecer. Mal o viam, tentavam escapulir. Difícil lidar com tanta amargura.
Veio a amiga mais bonita. Disse-lhe coisas no ouvido. Eram feitas de açúcar, mas ele sentiu um gosto de sal na boca.
“Talvez felicidade seja outra coisa.
Talvez seja melhor rir de um mal-entendido em vez de exigir desculpa.
Talvez seja bom ligar primeiro, em vez de esperar que lhe procurem.
Talvez seja sábio aceitar que o outro falha, assim como nós falhamos. Todos os dias.
Talvez seja hora de aprender que nada precisa ser perfeito para ser bom.
Talvez…
É que, no fim das contas, a vida não tem livro-caixa, nem saldo a ajustar. A vida é só um instante que passa – e cabe a nós escolher se queremos segurá-lo na mão ou deixá-lo escorrer por entre os dedos”.
Ele ouviu. Quis dizer que não era bem assim; que as coisas doíam, sim; que não era fácil esquecer. Mas, ao abrir a boca, já não tinha certeza. O caderno pesava no peito. Notou os números que ninguém devia ter de pagar. Suspirou, piscou, refugou.
Lembrou-se de quantas vezes mordeu a língua, entontecido de raiva. Ou do hábito de transformar pequenas contrariedades em tufões.
Chegou em casa disposto a se livrar do caderno, mas as páginas grudavam nele. Arrancou uma primeira folha e, dias depois, a segunda.
Está ainda a rasgar as páginas, uma a uma.
Sônia, de folha em folha você nos preenche, mas contrariamente ao caderninho, com esperanças de mudanças, com esperança de porvires mais luminosos, com esperança de como viver mais e melhor. Òtimos dias, ótimas realizações.
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Desse jeito
Yahoo Mail – E-mail Simplificado
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Que texto incrível. No dia a dia do caminho corremos o risco de fazer caderninhos como este, deixando de perceber as pequenas partículas de recompensas que o planeta nos dá…
Como sempre, um texto lúcido, que nos fala no fundo da mente, e nos faz refletir sobre nós mesmos e como nos vemos em relação ao mundo.
Obrigada.
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