Publico, abaixo, a carta deixada pelo ator e diretor francês Arnaud Denis, que ontem optou por encerrar a sua vida por meio de eutanásia, na Bélgica. É uma carta dolorosa, mas simultaneamente corajosa, cheia de dignidade e uma justa ira. Nela, Denis narra em detalhes todo o sofrimento que o vitimou e aponta diversas e recorrentes falhas no sistema de saúde francês. Há uma exaustão completa no texto. Exaustão física, moral, institucional. E, ao mesmo tempo, uma enorme lucidez na maneira como o ator organiza a própria saída de cena. Ele deixa o teatro do mundo rejeitando piedade e declarando em bom som que não aceita ser julgado por quem nunca experimentou dor igual. Resume em uma frase: “É meu direito”.

Embora a carta seja escrita como desabafo e denúncia, acaba por ter imensa força literária. A repetição de “Je ne remercie pas…” (“Não agradeço…) é uma chicotada. Vai acumulando indignação no leitor. Lembra a célebre estratégia de “J’Accuse”, de Zola. Cada frase desse inventário de dores acusa a sociedade francesa, particularmente o sistema médico, de ter falhado com ele.

A passagem: “Eu aguentei, custasse o que custasse, três anos de sofrimentos atrozes. Agora, depus as armas” nos deixa com um amargor tocando a boca, a língua, a alma. Arnaud depôs as armas com calma. Colocou-as no chão, exausto. Desistiu de se deixar torturar e reassumiu o controle sobre seu corpo.

A frase final de d’Ormesson, sobre as pessoas que “embarcaram no trem da minha vida” ofereceu um aceno aos que o encontraram ao longo da existência. Achei delicado e tocante.

Palavras de despedida que se gravam na gente. Difíceis de esquecer.

Para ler a postagem original da carta de Arnaud Denis no Facebook, clique aqui.

Arnaud também publicou um vídeo de despedida. Este abaixo.

Ao escolher a sequência final da fuga de Midnight Express (O Expresso da Meia-Noite), de Alan Parker, para acompanhar a carta, deixou um último gesto simbólico. E o fez dentro da arte que o consagrou.

O filme tem uma atmosfera sufocante. Trata de confinamento, degradação, perda de autonomia e a obsessão por se libertar. A sequência diz muito: um homem escapa do sofrimento que o confina. Morte, para Arnaud, significou liberdade.

A escolha de Arnaud Denis pela eutanásia não é simples. Muito ao contrário. Também não obriga seus leitores a concordar com as conclusões e acusações que faz. Mas filme e carta nos ajudam a compreender seu ponto de vista sobre sua vida e sua morte.

Aos 43 anos, Arnaud Denis optou por dar fim ao grande sofrimento que enfrentava. Ele ficou gravemente doente e incapacitado após a colocação de um implante para hérnia,

O advogado do artista, Philippe Courtois, explicou à AFP que “a decisão foi tomada após uma consulta com três médicos em Namur. Seu corpo já não o sustentava. Ele havia perdido o controle sobre ele. A morte de Arnaud Denis é consequência da dor intensa que ele vinha suportando há muitos meses”.

Mais conhecido por suas montagens de Ligações Perigosas (de Choderlos de Laclos) e As Mulheres Sábias (de Molière), Denis sofria desde a colocação de uma tela de polipropileno em 17 de julho de 2023, para tratar uma hérnia inguinal direita.

A cirurgia desencadeou inúmeros efeitos colaterais, o que acabou levando-o a remover o implante nos Estados Unidos, em abril de 2024. O ator foi diagnosticado com encefalomielite miálgica, no contexto da síndrome ASIA (uma reação inflamatória ligada à exposição a um adjuvante). Acredita-se que o implante tenha causado inflamação persistente e desregulado seu sistema imunológico.

“Não consigo mais sair de casa, não tenho vida social, não tenho vida alguma. Já não tenho nada que constitua a dignidade da vida de um homem. E a situação só piora. Vivo como um paciente com câncer em fase terminal. Os médicos não têm mais nada a me oferecer”, confidenciou ele, no início de 2026, ao jornal regional Dauphiné Libéré.
Em 5 de janeiro de 2026, Denis apresentou uma queixa à Divisão de Saúde Pública da Promotoria de Paris por “lesões corporais não intencionais”, mas o caso foi arquivado no final de agosto “por falta de infração suficientemente comprovada”.

Sem ver outra saída além da eutanásia para acabar com seu sofrimento, o ator declarou no início do ano: “Um homem sabe, lá no fundo, quando está condenado”. Em 18 de março, ele foi internado em uma unidade de cuidados paliativos de um hospital belga, aguardando a aprovação de seu pedido de eutanásia.

Chega de maus-tratos médicos (Carta de Arnaud Denis)

Já contei amplamente a minha história. Três intermináveis anos de deterioração do estado geral desde uma cirurgia de hérnia, em 2023.

Próteses de hérnia: escândalo sanitário.

Síndrome ASIA.

Dores incapacitantes.

Gastroparesia.

Mutilação sexual.

Mutilação vascular.

Má absorção.

Colapso digestivo e muscular.

Encefalomielite miálgica, abandono e negação médica na França.

Não agradeço à AP-HP [Assistance Publique–Hôpitaux de Paris] por ter me abandonado às minhas múltiplas e degradantes dores durante três anos de deterioração contínua do meu estado geral, apesar de todos os meus esforços. Não lhes agradeço por isso, quando eu havia perdido 17 quilos em três meses após a cirurgia de hérnia inguinal, em 2023, e já não conseguia me alimentar por falta de motilidade intestinal. Isso não lhes havia bastado.

“Tome laxantes.”

Eu havia pedido para ser hospitalizado. Responderam-me:

“A tomografia está normal. Volte para casa.”

Saúdo de todo o coração o meu médico de família, o único que tentou mover céus e terras para me ajudar — em vão.

Não agradeço aos neurologistas por terem recusado, repetidas vezes, uma biópsia muscular, quando eu já não conseguia andar nem sustentar minhas costas, meu pescoço e meus quadris.

Não agradeço ao Instituto de Miologia da Pitié-Salpêtrière, que se contentou em fazer um único EMG, em 2024, sem qualquer acompanhamento posterior, porque o exame não mostrava anormalidades. Isso enquanto um EMG realizado na Fundação Rothschild, em 2026, mostrava, sim, “anomalias neurogênicas crônicas dos membros inferiores”.

Nem agradeço àquele neurologista do Kremlin-Bicêtre que ousou escrever em um relatório “ausência de distúrbios da marcha”, quando eu estava usando muletas e um colar cervical para sustentar o pescoço.

Esse homem me recebeu com uma violência inaudita.

Fui doze vezes ao pronto-socorro em um ano.

Começaram dizendo:

“Você não tem nada.”

E quando eu já não conseguia andar, um dia me disseram:

“Sim, mas agora é crônico. Não há nada a fazer. Volte para casa.”

Não agradeço aos médicos do Protocolo CASPER, no Hôtel-Dieu, por terem minimizado a gravidade do meu estado e colocado em meu prontuário médico uma anotação permanente mencionando uma doença “crônica”, impedindo-me, assim, de realizar qualquer exame complementar ou de ter acesso a cuidados médicos, apesar do agravamento contínuo.

Nem sequer um tratamento para a dor.

Fui abandonado numa espécie de via morta médica, sem nenhum apoio, e me diziam para “fazer exercício”, enquanto eu pedalava em casa numa bicicleta elíptica havia dois anos e continuava, mesmo assim, perdendo massa muscular.

Até acabar com osteopenia, com risco de fraturas espontâneas e rupturas de tendões.

Nem sequer tive acesso a cuidados paliativos na França, apesar de meus pedidos, quando já estou reduzido à condição de uma pessoa acamada.

Alguém, em algum ponto da cadeia do meu percurso médico, não fez seu trabalho a tempo. Depois, já era tarde demais.

Não agradeço ao serviço de emergência para cefaleias do Lariboisière por ter recusado, várias vezes, fazer o meu registro quando lá estive, algo contrário aos direitos dos pacientes, enquanto eu sofria dores de cabeça tão intensas que tinha vontade de bater a cabeça contra as paredes, e acabara de perder 20% da audição bilateral, além de parte da visão.

“É a idade, senhor.”

Sim. Aos 40 anos, é perfeitamente normal perder a capacidade de andar, perder a audição e subitamente passar a enxergar tudo embaçado. Claro.

Quando exigi que fizessem o meu registro, jogaram o meu prontuário sobre minhas pernas e disseram:

“Já que o senhor insiste à força…”

Falando comigo como se eu fosse um animal, uma criança, quando tudo o que eu fazia era pedir ajuda.

As pessoas normalmente pensam, de maneira um pouco ingênua, que basta “ir ao hospital” para melhorar e receber tratamento.

Infelizmente, isso é falso.

Eu também pensava assim antes de me tornar vítima de repetidos erros médicos. Eu ainda acreditava um pouco em Papai Noel. Meu prontuário médico está cheio de erros graves. A começar por uma punção lombar coletada tarde demais (oito meses depois do aparecimento dos problemas neurológicos) e analisada “por derrogação”, porque chegou tarde demais ao laboratório em Lyon, embora tivesse sido coletada em Paris, o que reduz as possibilidades de uma análise adequada.

Encontrou-se hiperproteinorraquia, algo que não é suficientemente específico e indica sobretudo uma inflamação neurológica persistente, mas decorrente de uma infecção passada que provavelmente atravessou a barreira meníngea.

Está escrito no meu prontuário: “O responsável pela coleta deve assegurar que a amostra seja encaminhada dentro dos prazos regulamentares. Risco de subestimação da leucorraquia.”

A amostra chegou tarde demais.

Quando as patologias decorrem de um procedimento cirúrgico, como aconteceu comigo, as portas vão se fechando uma depois da outra, e você continua, impotente, assistindo à própria deterioração, sem ajuda.

Um relatório recente e devastador do Tribunal de Contas demonstra uma enorme subestimação dos eventos adversos nos hospitais franceses:

“7.000 notificações de eventos adversos em 2024, para um número real estimado entre 20 e 50 vezes maior.” (Fonte: France Info.) Isso diz respeito tanto às infecções hospitalares quanto aos erros de diagnóstico e às falhas médicas graves.

Esse fenômeno é responsável por pelo menos 4.000 mortes por ano na França. Sou vítima de repetidos erros médicos e de um atendimento realizado tarde demais em relação ao aparecimento dos meus primeiros sintomas alarmantes. Pacientes como eu acabam entrando numa espécie de lista negra da Assistance Publique.

Não agradeço aos radiologistas por terem precisado de nada menos que quatro ressonâncias magnéticas da pelve até finalmente escreverem, preto no branco, que a prótese inguinal estava “deslocada para a direita” e “comprimia o cordão espermático”, além de provocar uma redução da artéria ilíaca.

Não agradeço à empresa Medtronic, que fabricou o implante que destruiu meu corpo por dentro, minha imunidade, minha digestão, minha sexualidade.

Nem ao cirurgião que me operou por nunca ter me mostrado a bula/documentação do implante, com todos os possíveis efeitos adversos. Se tivesse mostrado, eu teria saído correndo.

E que também convenientemente deixou de me dizer que, em caso de problema ou intolerância, o implante não poderia ser retirado sem o risco de destruir todo o assoalho pélvico.

Não agradeço aos sete cirurgiões do aparelho digestivo que consultei depois das incontáveis complicações e que, covardemente, ficaram passando a batata quente uns para os outros.

Também não agradeço aos doze gastroenterologistas, que não propuseram nenhuma investigação aprofundada de disbiose ou de infecção intestinal crônica e se limitaram a tratar os sintomas, em vez de procurar a causa inicial, enquanto os níveis de vitaminas nos meus exames de sangue continuavam caindo inexoravelmente.

Não agradeço à ANSM [Agência Nacional Francesa de Segurança dos Medicamentos] pela leviandade com que trata os alertas feitos pelos pacientes vítimas desses problemas.

Eles defendem uma indústria, não os pacientes.

Não agradeço às clínicas privadas nem aos hospitais franceses que se recusam a fornecer aos pacientes implantados as referências de suas próteses de hérnia, embora a rastreabilidade seja uma obrigação legal.

Isso desencoraja os pacientes a notificarem efeitos adversos no portal do Ministério da Saúde. Isso provoca uma enorme subnotificação e faz com que a relação benefício-risco seja completamente distorcida e mal avaliada.

Trata-se de uma desordem grave.

Também não é aceitável que cirurgiões do aparelho digestivo recebam regularmente dinheiro dos fabricantes de próteses para congressos ou viagens com todas as despesas pagas. (Isso pode ser verificado no Transparence Santé.)

O conflito de interesses não beneficia os pacientes.

Não agradeço à Justiça francesa, que provavelmente arquivará o caso “sem prosseguimento” e não estabelecerá uma relação de causalidade.

Embora eu estivesse em perfeita saúde antes dessa intervenção.

Não há justiça para as vítimas das consequências iatrogênicas da medicina na França.

Por fim, depois de um PET-RM cerebral realizado no Henri-Mondor, que mostrou hipometabolismo em determinadas regiões do cérebro, fui diagnosticado com encefalomielite miálgica.

A todos os doentes com encefalomielite miálgica cujos sofrimentos são negados pelo meio médico na França e no mundo: há uma emergência sanitária.

Essa doença neurológica incapacitante pós-infecciosa atinge milhões de pessoas no mundo.

Milhões.

Entre elas jovens e crianças, que sobrevivem acamados no escuro, em condições deploráveis.

Estou em contato com dois jovens, de 23 e 27 anos, que em breve recorrerão à eutanásia em outros países, de tão intoleráveis que se tornaram suas condições de vida.

Alguns acabam morrendo de desnutrição em casa, de tão inadequados que são os cuidados.

Não há nenhum acompanhamento das graves complicações fisiológicas que isso pode provocar, entre elas a instabilidade craniocervical, a medula presa oculta, os vazamentos de líquido cefalorraquidiano mal detectados, as compressões vasculares que provocam hipoperfusão cerebral.

A síndrome de taquicardia postural ortostática, as reativações virais, as anormalidades encontradas nos músculos, os comprometimentos do sistema nervoso central, as ganglionopatias dos nervos espinhais, a hipovolemia — nada disso é investigado na França.

O financiamento destinado à pesquisa é ridículo diante do número de pessoas afetadas.

Isso precisa mudar.

Os governos permanecem inativos e deixam os doentes sem qualquer esperança terapêutica, num abandono de cuidados deplorável e desprovido de qualquer dignidade humana.

Quanto aos médicos que não acreditam na doença, embora ela seja reconhecida pela OMS desde 1969, vergonha para eles.

Vergonha daqueles que psiquiatrizam os doentes em vez de se manterem atualizados em relação à pesquisa internacional, enquanto o Hospital Charité, em Berlim, na Alemanha, organiza conferências anuais reunindo especialistas do mundo inteiro.

Um dia vão nos ouvir.

As síndromes neurológicas pós-infecciosas precisam se tornar uma prioridade de saúde pública.

Ainda mais porque seu número explodiu de maneira vertiginosa desde a pandemia de Covid e elas permanecem invisibilizadas pelo sistema de saúde.

Mas quantos mortos haverá até lá?

Por decisão própria ou por uma deterioração lenta e inexorável.

Também não se estabelece relação alguma com os afastamentos do trabalho, que não param de aumentar.

Quanto a mim, trabalhei incansavelmente no palco durante 22 anos.

Não é nenhuma diversão deixar de conseguir ficar em pé, andar ou sair da cama.

Não tenho interesse algum em continuar assim.

A todas as vítimas de próteses de hérnia, entre as quais me incluo, e que são milhares deteriorando-se pouco a pouco, esmagadas por dores, infecções crônicas e incontáveis complicações que também são ignoradas.

Vergonha dos cirurgiões que abandonam seus pacientes com dores insuportáveis diariamente e lhes dizem que está “tudo na cabeça deles”, mesmo quando alguns permanecem com incapacidade permanente.

“Não aparece nada nos exames de imagem, está tudo normal”, dizem eles.

É muito conveniente: o polipropileno não é radiopaco e desaparece sob a fibrose inflamatória.

Portanto, em geral, não se “verão” as causas da dor.

É uma roleta-russa aterrorizante.

Também lamento que a prótese retirada do meu corpo por causa dos meus inúmeros sintomas sistêmicos não tenha sido analisada bacteriologicamente pelo laboratório do hospital, apesar do meu pedido prévio.

Isso deveria ser sistemático.

Essas próteses, por sua própria constituição e pelo contato com o sistema digestivo, são focos propícios a infecções por estafilococos.

Quanto àqueles que ousarem julgar minha decisão de partir conservando o pouco de dignidade física e moral que me resta, eu lhes nego esse direito.

Eles estão a anos-luz de imaginar o sofrimento físico e neurológico permanente provocado por essa doença.

Estudos internacionais sobre qualidade de vida colocam a encefalomielite miálgica entre as condições associadas às piores qualidades de vida possíveis, considerando todas as doenças crônicas.

A taxa de suicídio é muito elevada porque não há cura, não há atendimento adequado, não há escuta.

Eu aguentei, custasse o que custasse, três anos de sofrimentos atrozes.

Agora, depus as armas.

É meu direito.

Pelo menos na Bélgica.

E saúdo a profunda empatia e a delicadeza do acompanhamento médico que recebi ali. Finalmente, escuta, respeito pela minha dignidade, pela minha integridade física, o reconhecimento da minha dor física e moral.

Ainda não chegamos a isso na França.

Meu país terá me decepcionado até o fim: recusa-se a cuidar, mas também se recusa a ajudar a morrer.

A mensagem que se pode extrair dos médicos é: “Morram lentamente em casa, mas não nos incomodem.”

Nem sequer tive direito a cuidados paliativos, embora já não consiga me lavar ou me alimentar sozinho e as dores nas costas sejam insuportáveis.

A eutanásia não é uma “escolha terrível”, não, quando já não existe um único momento de alívio.

É uma libertação.

E aqueles que se opõem a ela carecem de imaginação e não conseguem conceber que o sofrimento possa durar indefinidamente, durante anos, sem nenhuma esperança de melhora ou de tratamento.

Eles entenderão quando estiverem nessa situação.

Ou quando tiverem visto alguém próximo deteriorar-se de tal maneira, contra a própria vontade, que chega um momento em que, sim, basta.

Chega.

Eles se protegem dessa ideia porque isso lhes traz conforto.

Traz-lhes conforto pensar que a medicina tem resposta para tudo e que doenças incapacitantes e órfãs não existem.

Nego a qualquer pessoa o direito de me julgar.

A menos que viva seis meses no corpo de um doente com encefalomielite miálgica em estado grave, para compreender o que é o horror absoluto.

Penso em Samuel, 22 anos, que foi para a Áustria para realizar suicídio assistido em fevereiro passado, sofrendo dores neurológicas intoleráveis provocadas pela mesma doença.

E que algumas pessoas se permitiram julgar, em programas de televisão e em outros lugares, dizendo coisas infames, enquanto ele “sobrevivia” acamado no escuro.

Penso em Kelvin, nos Países Baixos, 23 anos, um jovem brilhante que se prepara para iniciar os mesmos procedimentos em seu país devido a uma encefalomielite miálgica grave.

Penso em Alicia Pallenchier, que sofre há tantos anos.

Em Johann Margulies, que escreveu um livro magnífico sobre o inferno dessa doença.

Em Chantal Somm, presidente da associação Millions Missing France, que luta, apesar de sua exaustão, para proteger os doentes contra os abusos institucionais.

E em tantos outros que sofrem durante anos sem qualquer trégua.

Naqueles que nos deixaram em meio à indiferença e ao desprezo absolutos, em todo o mundo.

Não escrevo tudo isso para que sintam pena de mim.

Não tenho qualquer interesse em piedade.

Nem escrevo para chamar atenção para mim.

Eu era o homem mais feliz do mundo antes de adoecer gravemente.

O que denuncio aqui é a violência de um sistema médico que esmaga o doente em vez de socorrê-lo quando ele não “se encaixa nas caixinhas”.

Tentarão desacreditar meu testemunho e minimizar meus sofrimentos, porque o sistema foi concebido assim.

Paciência quanto àqueles que não procurarão compreender.

Há aqueles que vivem isso.

Eles sabem.

Os próprios cirurgiões do aparelho digestivo, mesmo quando milhares de vítimas de próteses de hérnia estão se organizando na França por apresentarem os mesmos sintomas, ousam falar em “campanha difamatória” ou “teoria da conspiração”.

Milhares de pessoas que sofrem.

Que perderam sua vida profissional, sua mobilidade, sua digestão, sua sexualidade, sua vida afetiva, sua autonomia.

Tudo aquilo que constitui a dignidade de uma vida humana.

“Eu sempre perdoei aqueles que me ofenderam. Mas tenho a lista.”

Jean-Jacques Sempé.

A todos os meus irmãos e irmãs de luta.

E a todos aqueles que “embarcaram no trem da minha vida”, como dizia d’Ormesson, e que abraço com toda a minha alma.

Arnaud