Nas rodas de amigos do Oiapoque, na década de 70 só havia uma diversão, a cachaça. O pudor impedia que a chamassem pelo seu nome real. Deram-lhe um apelido pomposo: aperitivo. Abre o apetite, sabe? Antes do almoço, no fim da tarde, perto da hora do jantar, o pessoal entornava a branquinha com gosto. Manoel, Estevinho, Arnaldo, Raimundo. Todos no bar do Dora, rindo a valer, contando piadas, colocando apelidos. Papa-Arroz, Diabo Assado, Tatu, Gato, Bacana. Riam de ficar vermelhos.

A certa altura chegava o sargento Valentim. Pedia uma Coca-Cola para abrir os trabalhos. Não podia beber nada alcóolico, pois estava de serviço. Colava a garrafa de vidro na boca e entornava tudo de uma só vez. Limpava os beiços com o braço e colocava a garrafa devagar sobre o balcão.

Silêncio. O bar mergulhava em expectativa.

O arroto era ouvido a três casas de distância, assim como as risadas.  Recomeçavam o burburinho, as piadas e as rodadas de cana.

Voltavam para casa quando a luz piscava três vezes, anunciando que a energia elétrica ia ser desligada. Pontualmente, às 21 horas, o motor parava. Sem choro nem vela. Todos os dias.

Entrava na casa de madeira tropeçando no tapete de retalhos que a companheira deixava no pátio. Tateava em direção à cama e desabava. De manhã, a mulher amuada nada dizia. Ele olhava para o outro lado e esfregava a cara inchada antes do banho de balde na casinha. Um café preto e estava animado para mais um dia de trabalho. Na hora do almoço, os filhos de cabeça baixa, a esposa ainda com cara de poucos amigos. Ruim viver assim – logo ele, tão amigo do riso, sempre pronto a contar um causo e a servir os vizinhos. No fim da tarde, no bar, a turma reunida aguardava por ele. Já nem sentia a aguardente queimando a goela.

Deitado na cama, horas depois, ouviu o cochicho do filho de 11 anos: O papai tá de porre. De novo.

Uma bofetada em forma de frase. Virou a cara para a parede pensando que a vida era dura demais e não era preciso  torná-la pior.

No dia seguinte, na hora do almoço, anunciou: Amanhã é o dia da festa de Nossa Senhora. Tem arraial. Nós vamos, viram? Vamos comer bolo de macaxeira, tomar uns guaranás…

As crianças se entreolharam, o ceticismo travando batalhas com a alegria. Nada disseram. A esposa continuou a comer, sem levantar a cabeça.

No dia seguinte, sentado na cadeira de plástico, comeu o bolo de macaxeira e o espetinho de frango. Pediu guaraná para todos. A mulher, muito quieta, o observava pelo canto dos olhos. A filharada ria, brincando com os brindes baratos pescados na quermesse.

Sentiu um tapinha nas costas. Eram os amigos. A esposa virou o rosto, como se contemplasse algo à distância, mas uma veia começou a lhe pulsar na testa quando os camaradas o chamaram: Tem uma mesa lá no fundo, vamos?

– Já vou, já vou. Respondeu, sorridente.

– Que é isso que tu estás tomando, rapaz? Refrigerante? Tá virando mulher agora?

Riu de novo. Imperturbável.

– Já vou lá.

A mulher fingiu catar migalhas de bolo na mesa. Ele continuou onde estava. Deu mais uns trocados aos moleques e cantarolou a música que tocava na hora. Às 21 horas, voltaram juntos para casa.

No dia seguinte não apareceu no Bar do Dora. Nem no outro. Uma semana depois, os amigos o cercavam. Estava chateado? Por que não aparecia? Respondia que estava ocupado, com problemas a resolver. Coisas da família. Um mês depois, já se dizia dele que não era mais o mesmo, que desprezava os amigos, que parecia mulherzinha nas festas, sempre com um copo de guaraná. Ele sorria.

Não sabia quando exatamente começaram os problemas, mas estavam lá. Uma ansiedade inexplicada, o coração disparado. Percebia que a irritação chegava nas horas mais inconvenientes. E aquela dor de cabeça. Acordava no meio da noite, com  ânsia de vômito e o suor empapando a camisa.

Diante do médico do Exército, contou tudo, incluindo o tremor esquisito nas mãos e uns ataques de nervosismo que o deixavam mortificado. Disse ao doutor que não via motivos para isso: a vida em casa nunca havia sido tão boa. A mulher parecia um passarinho, de tão feliz.

Doutor Custódio lhe explicou que não basta a vontade para se libertar de certas prisões. Esta é essencial, mas o corpo reage. Tem vida própria, quer as coisas que o espírito rejeita. Era preciso que tomasse uns remédios para ajudar sua alma de ferro.

***

Em 2018, o carro sacoleja pela estrada de terra. Uma camada grossa de poeira vermelha se acumula nas folhas à beira da rodovia. Ao subir as montanhas dá para ver, bem ao lado, os abismos pontilhados de árvores. Na descida, igapós de água esverdeada. Impossível dormir diante da paisagem amazônica – seja por medo, deslumbramento ou respeito.

Meu companheiro de viagem tem 70 anos de puro vigor. Caboclo do Cassiporé, domador de pororoca e artista de travessias no oceano, Bacana é personagem do meu livro. Dono de paciência infinita, sorri o tempo todo e está sempre disposto a uma gentileza.

Paramos para almoçar. Restaurante barato, limpinho. Na mesa coberta por uma toalha xadrez e um plástico transparente, ele coloca o prato e começa a comer devagar.

– Quer uma cerveja? Pergunto.

– Não bebo.

– Não?

– Não.

Pausa demorada.

– Sei até o dia em que parei: 15 de agosto de 1979. Dia da festa de Nossa Senhora das Graças.

Em poucos segundos – como naqueles filmes antigos – o dia presente se desfez e o personagem mergulhou em si mesmo, revivendo um passado distante, cavando memórias. Contou tudo com a voz inalterada, como se narrasse coisas prosaicas e não o seu marco existencial.

Ouvi tudo em silêncio, com a mão apoiada no queixo e o olhar esgazeado de quem repetinamente se descobre viajando na companhia de um gigante.

***

Pintura: O Almoço dos Barqueiros (Le Déjeuner des canotiers), de Pierre-Auguste Renoir.