Quando busco os fatos que por sua antiguidade foram removidos da memória de nossa geração, descubro que muitas cidades foram fundadas, as chamas de muitas guerras foram extintas, firmes alianças foram construídas e grandes amizades foram formadas graças à eloquência”. Marco Túlio Cícero

Uma palavra era a rainha dos que se dedicavam à retórica na Antiguidade clássica: persuasão. Não interessava a um grande orador silenciar os oponentes por meios violentos, isso era coisa de bárbaros ou de gente sem argumentos decentes. O objetivo maior era persuadir os ouvintes, conquistar-lhes a alma, seduzi-los por completo até que, cativos e dóceis, eles se rendessem, intelectual e emocionalmente.

É uma ideia que dialoga com as de Sun Tzu na Arte da Guerra: “É preferível capturar o exército inimigo a destruí-lo. Vencer uma centena de batalhas não é o cúmulo da habilidade. Dominar o inimigo sem combater, isto sim é o cúmulo da habilidade.”

E qual o meio mais eficaz para se dominar um adversário sem entrar numa batalha sangrenta?  A retórica, não há dúvida. É dela que desejo falar neste momento em que a barbárie da expressão, o desapreço pela opinião alheia  e a provocação rasa tomam o discurso dos homens públicos e seus apoiadores, a começar pelo presidente da República. 

Comecemos com um pouco de história. Na Antiguidade grega, calorosos debates refletiram sobre a natureza da eloquência e os segredos de um discurso persuasivo. Aristóteles consagrou na sua Retórica a feliz união de pathos (as paixões), ethos (o caráter do orador) e logos (o conhecimento) como ingredientes para que ocorresse a desejada persuasão. 

O debate desaguou, cinco séculos depois, em Roma, onde, aos 47 anos de idade e quase três décadas de experiência na tribuna, Marco Túlio Cícero escreveu De Oratore, um tratado magistral no qual construiu o perfil do orador perfeito. Dois mil anos se passaram e, Cícero – que não hesito em identificar como a maior influência na literatura ocidental – ainda é essencial quando se debate o papel do homem público e a natureza de seu discurso. 

Cícero exige do orador uma disposição para o autoaprimoramento que é cada vez mais rara no mundo moderno. Acrescentou ao menu do retórico a necessidade de reunir um vasto conhecimento de arte, história, literatura, direito e filosofia – aquele conjunto magnífico que uma parte de nossa população brasileira desdenha sob o rótulo barato de ser “coisa do pessoal de Humanas”. Esquece-se que ali foram elaborados e curtidos os grandes temas da ética, das leis, dos direitos do cidadão – em resumo, os fundamentos da civilidade. 

Por vezes, o cinismo e agressividade dos nossos dias verão no texto do grande latino um idealismo que não cabe na nossa época. Discordo antecipadamente. Sigo a acreditar que a liderança e a sabedoria de um  orador (ou de um homem público) fornecem a base principal não apenas para sua própria dignidade, mas também para a segurança da população e do Estado em geral.

De Oratore tem um trecho revelador sobre a mágica das palavras, que Cícero põe nos lábios de seu mentor Lucius Crassus: “Creio que nada é mais admirável que ser capaz de, pela fala, tomar posse das almas humanas, vencer suas inclinações, conduzi-las à vontade em uma direção ou outra. Esta habilidade que, mais que qualquer outra, sempre floresceu e reinou suprema em todas as nações livres e especialmente nas calmas comunidades”. 

Crassus/Cícero explicam o que se deseja alcançar com uma fala estruturada nas milenares leis da retórica: “O que seria mais agradável à mente e aos ouvidos que um discurso notável e refinado por sábios pensamentos e palavras soberbas? Ou o que seria tão poderoso e esplêndido quanto a única fala de um homem transformando os impulsos do povo, a disposição dos jurados ou a autoridade do Senado? O que seria mais régio, generoso ou magnânimo que emprestar auxílio aos miseráveis, erguer os aflitos, oferecer segurança às pessoas, livrar os homens dos perigos? E, ao mesmo, tempo, esta arte fornece armas com as quais o homem pode defender a si mesmo, desafiar os perversos e proteger-se quando atacado”.

Sim, o discurso de um hábil orador, que domina a arte da persuasão e sabe como apelar às emoções humanas, é arma poderosa que pode ser usada para o bem ou para o mal. Churchill e Hitler são exemplos contemporâneos (quase clichês, reconheço) bastante eficazes para provar o argumento.

A biografia e as palavras de Cícero demonstram que ele nunca se esquivou de defender os princípios em que acreditava. Por vezes, como nas Catilinárias e nas Filípicas, seu discurso tornou-se extremamente condundente e combativo, jamais vulgar. Nunca abriu mão de ingredientes como caráter, conhecimento de causa e amor à verdade.

Ah, a verdade. Ainda na Grécia antiga, os retóricos que louvavam o mero poder da palavra e rejeitavam o uso da verdade em favor do provável e do relativo foram confrontados pelos filósofos. Sócrates e Platão se engajaram em uma disputa surda na qual defendiam a ética e a verdade descoberta pela dialética. Cícero voltou ao tema, aliou-se à defesa da verdade e da ética na argumentação. Concluiu que se a sabedoria sem eloquência pouco fazia pelo bem das comunidades, o contrário era pior: eloquência sem sabedoria tornava-se extremamente prejudicial.

O que dizer quando faltam ambas as qualidades? É a hora em que o ouvinte deve deixar a caixinha confortável das paixões e se erguer contra o discurso, rejeitando a FORMA como o autor apresenta suas idéias ou questionando a veracidade de seu conteúdo, quando for evidente o caso de irresponsabilidade ou manipulação de informações. Fará muito bem a ambos combater os excessos.

Na opinião de Cícero, se alguém emprega suas energias na prática da oratória mas negligencia os mais altos e honrados princípios da razão e da conduta moral, é um cidadão inútil a si mesmo e prejudicial ao país. Vale para o orador e sua plateia, cujo comportamento condescendente dá carta branca para que novos excessos sejam cometidos. Já vimos isso acontecer com Lula e outros.

Faz-se necessário – repito – beber na fonte da retórica clássica para bem se conduzir no Brasil de hoje. Há regras para o discurso e vale a pena recordá-las. Depois de ter planejado o que falar e ter refletido sobre a ordem que as ideias serão apresentadas, é preciso que se decida COMO dizer. Dominar o estilo (elocutio) é compreender que a mesma coisa pode ser dita com palavras diferentes e de formas diversas. O resultado pode ser agregador ou aumentar a fogueira das paixões políticas que nos dividem. A escolha diz muito sobre o caráter e as intenções do orador (e dos que o aplaudem).

O que queremos nós com todo esse debate político? Vingança pura e simples? Uma guerra fratricida que não termina? Não, isso é indigno de nós. O que se repete à larga é que desejamos um país melhor, menos violento, onde a grandeza viceje. Pois bem, não é com a língua envenenada que se vai desarmar a armadilha do “nós contra eles” que foi montada na era do lulo-petismo e prossegue forte no governo Bolsonaro.

Um bom começo é reconhecer que a atual situação de confronto é inaceitável e que o discurso deve ser aprimorado para iniciar um período menos tenso. Outra regrinha básica que poderia ser adotada: é preciso que os homens públicos conheçam os assuntos sobre os quais falam, pois, perdoem-me os ignorantes, o logos é fundamental.

Para Cícero, o palavreado que escapa da boca sem ter sua origem no conhecimento é vazio e ridículo, e mesmo um conteúdo brilhante (que não é o caso atual no Brasil) pode ser obscurecido por uma má escolha de palavras. Mas se Cícero for profundo demais para os dias de hoje, a alternativa pode ser colocar, em frente ao Palácio do Planalto, grafado em letras garrafais, o velho provérbio: o peixe morre pela boca.

Ah, e não me venham argumentar que o Brasil de hoje é mais bárbaro que Roma antiga, onde os inimigos do Estado eram crucificados (literalmente e não, como hoje, nas redes sociais). O sistema sempre foi bruto e mesmo o grande Cícero não escapou à sua crueza. Terminou assassinado, decapitado com a língua cortada e perfurada seguidas vezes por um alfinete de cabelo. Cortesia de Fúlvia, esposa de seu inimigo Marco Antônio. Barbárie em estado puro para tentar derrotar a língua dourada que arrastava multidões.

Não deixa de ser uma última lição para a posteridade: a retórica é tão poderosa e convincente que só mesmo a morte e a brutalidade podem tentar detê-la. Ainda assim, não conseguem. Tantos séculos se passaram e cá estamos nós a falar de Cícero e suas lições.

O ponto central, mesmo, é que neste século XXI podemos escolher entre a tribuna de Cícero, que persuade, denuncia e se posiciona com grandeza, amor à verdade e expressões dignas; e o método de Marco Antônio e Fúlvia, com guerra fratricida, cabeças cortadas e alfinetes perfurando as línguas. Atenção, relembro: a escolha vai falar muito mais sobre os autores do que sobre os seus inimigos.

De nada, Mr. President.

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Pintura: Cesare Maccari. Cícero denuncia Catilina (1888).