Prepare-se para o ódio, disse a Glória Perez ao Eduardo Affonso. Ele entendeu o alerta, demonstração de afeto destinada a protegê-lo das bofetadas reais e virtuais. Glória conhece as manhas do inimigo oculto que planeja nas sombras e entrega cálices de veneno com um sorriso nos lábios.

Todos os que nadam nas águas turbulentas da internet sabem: o mar não está para peixe. Ainda mais para piabas amorosas, dadas a escrever sobre humanidades, gestos de amor, delicadezas. É que nadam, entre as ondas de bits e bytes, uns tubarões bem fornidos, com dentes pontiagudos. Estes são viciados em odiar. A qualquer sinal mínimo, atacam, arrancando nacos de carne, desatando as veias da gente até que o vermelho do nosso sangue tinja o mar.

Eu prometi escrever um texto à altura do Eduardo. Durante vários dias fiz textos filosóficos, piegas, sofridos, otimistas. Joguei tudo fora. Resisti à tentação renatorrussiana de juntar a lírica de Camões e epístola de Paulo de Tarso na mesma estrofe. Por fim, saquei da cachola um texto com jeito de passista, todo trabalhado no suingue. Saiu vestido de palhaço mas com a maquiagem borrada – acho que para combinar com estes tempos cariocas.

Dei a ele um nome pomposo: Manual Básico de Natação & Sobrevivência nas Redes – ou a Arte de Enfrentar Tubarões Dentuços. É seu, Eduardo, tome. Use-o na sua preparação espiritual para enfrentar o ódio.

Comece com aulas de Aikidô. Nada como técnicas japonesas para se desviar das agressões. Consiste em aprender movimentos complexos e rápidos que transformam qualquer ataque em balé. Na prática: o fulano lhe atira lama e você desliza para a direita (ou para esquerda), salta, dobra-se no meio, banca o Neo em Matrix ou incorpora um Michael Jackson em “Smooth Criminal“. Escapa limpinho. Já o fulano, este cai sozinho e tem de administrar as barbatanas sujas da lama que carrega – um problemão.

Mais do que arte marcial, o Aikido vai lhe ensinar a se esquivar com elegância, prevenir ferimentos e preservar a harmonia interna. Pacote completo.

Na letra B tem binóculos, para identificar de longe os dentuços. Mas se eles chegarem perto o suficiente, valha-se do método Cora Ronai, aquele que determina que “block é vida, block é saúde”. Ninguém discorda. Depois de um dia a gente nem lembra o nome do infeliz. Se você estiver belicoso e achar que o Aikidô é zen demais, sugiro combinar a técnica da Cora com uns golpes de Jeet Kune Do, o método do Bruce Lee. Defende do mesmo jeito, mas com um jeitinho indisfarçável de street fight.

No capítulo 3 tem letra C, de Champanhe. Infalível para esquecer ameaças de gente tola. Tome um gole com os amigos, de preferência numa praia. Pode ser em taça ou no gargalo mesmo. Vai lhe dar uma irresistível vontade de voltar uma casa, apertar a tecla B e seguir feliz. Se você for abstêmio, adote (mais um) cachorrinho. De preferência um vira-latas, com cara de pulguento e que todo santo dia vai te olhar como se você fosse um dos Beatles.

Na dúvida, valha-se de um despacho. Não, não! Nada de encruzilhada. É apenas para despachar o dentuço para o país do “não me lembro”, a doze metros do fim da terra plana.

Letra E? De enxada, lógico! Você entrega nas mãos do odiento e sussurra suavemente nos ouvidos dele, com voz sexy: vá capinar um lote, querido. Na falta de uma enxada, já sabe: sugira tanque de roupas, tirar catarro do nariz de criança, filosofar diante de uma pia abarrotada de louça ou percorrer a Esplanada dos Ministérios, lâmpada nas mãos, em busca de um homem honesto.

Fé na vida, no homem, no que virá. Só não deixe que seja cega e porte uma faca amolada, pois isso é coisa de tubarão e a gente é piaba. Ingenuidade paga imposto dobrado.

Na letra G tem Gato, Goiabada, Gabbeh. Minha avó prescrevia goiabada como antídoto para gente que odeia. Se o açúcar não lhe transformar num Buda do Leblon, use a lata na cabeça do indivíduo. Vai gastar seu réu primário, mas a gente contrata o Helinho Saboya para te defender. Aposto que a petição virá em verso ou emulando um Dias Gomes.

Hora de Interromper essa Joça de Lista em ordem alfabética. Meu Miolo falhou? Não. Ora bolas: é Preguiça. Mas Que Ridículo. Ok, vou retornar ao rol.

S de Schopenhauer. Este é para vencer um debate sem precisar ter razão. Só use em casos extremos, como síndrome do asno irrecuperável. Do T eu já falei no capítulo da enxada (tá lá: tan-que). Só me resta o u de uísque, o v de vinho, o x de xerez.

Se nada disso funcionar, apele para a nossa arma secreta, o Zanatta. Você já viu alguém com raiva depois de ler algo escrito pelo Cássio? Acalma TPM de onça pintada, transforma jaguatirica em bichano.

Se a bactéria do dentuço odiento for resistente ao Cássio, só vejo uma solução. É radical, mas a situação exige: Paul McCartney.

Peça a um médico de sua confiança que prescreva duas doses de McCartney a cada seis horas. É tiro (oops) e queda (sorry).

Use as tolas canções de amor do Macca sem moderação. São uma espécie de antídoto para todo mal. Já curei unha encravada, espinhela caída e envenenamento virtual com doses maciças de Paul McCartney.

Só é contraindicado para diabéticos descompensados. Não há pâncreas que sobreviva a um “and in the end the love you take is equal to the love you make”. Pera, vou ali tomar insulina.