Nine times the space that measures day and night
To mortal men, he, with his horrid crew,
Lay vanquished, rolling in the fiery gulf,
Confounded, though immortal. But his doom
Reserved him to more wrath; for now the thought
Both of lost happiness and lasting pain
Torments him: round he throws his baleful eyes,
That witnessed huge affliction and dismay,
Mixed with obdurate pride and steadfast hate.

John Milton. Paradise Lost. Book I

John Milton, em seu grandioso “Paraíso Perdido”, vale-se de sofisticada poesia para descrever a trajetória de um Lúcifer que, intoxicado de orgulho, acredita-se igual a Deus. Mais que isso, imagina-se capaz de derrotar o criador, tomar-lhe o território, estabelecer ali o seu império. Um anjo cujas altas qualidades não lhe evitaram a queda fragorosa. Lúcifer talvez seja a mais célebre dentre as personagens que sucumbiram às armadilhas da hübris.

Os antigos gregos, dados a observar detidamente os fascinantes caminhos da alma humana, criaram a palavra hübris para traduzir o orgulho excessivo.

Desmedida é a palavra exata para explicar o conceito de hübris. Não é o mero orgulho a que estão sujeitos todos os homens, mas o excessivo. O orgulho que cega, enlouquece, sequestra o bom senso. Imerso em extremada vaidade e egolatria, o homem se perde. Já não consegue identificar limites, abismos, perigos.

Os velhos gregos acreditavam que os deuses puniam tal exagero. Pesavam a mão sobre os mortais quando se sentiam ultrajados pelos que os desafiavam com arrogância e ambição incontidas. Hoje a divina mão punitiva é metáfora para as consequências das atuais demonstrações de hübris. A sociedade as castiga rapidamente, veloz como o raio de um moderno Zeus. Implacável, online e em tempo real.

Se tivesse de escolher uma palavra para definir este nosso tempo, certamente seria hübris. Já o disse antes.

Basta observar como uma grande parte de nós – com os sentimentos insuflados pelos algoritmos das redes sociais – mergulha, sem pejo, no grande oceano da agressão. Mãe do desprezo a tudo que não for de acordo com a sua opinião, a hübris move nos homens violentas paixões e descontrole. Droga do espírito, compromete a memória, fazendo esquecer boas maneiras, educação, sensatez, equilíbrio.

Não estou a dizer que devamos ter comportamento apático diante de desmandos, ladroeiras, abusos de poder, opiniões e gestos lastimáveis. Nada disso. Apenas defendo algo que se torna mais e mais raro: um debate norteado pela razão, que sabe discernir, que não apela para argumentos esquálidos. Lamento as generalizações tolas a que nos acostumamos nas últimas décadas e os rótulos que tão facilmente colamos na testa alheia.

Envenenados por nós mesmos, tornamo-nos impermeáveis ao óbvio: que confiamos nossas vidas, votos e país a gente insensível, desonesta ou de notória incapacidade. Reconhecer o equívoco é tarefa a que não nos propomos, pois dói. Aferramo-nos, então, a uma defesa cega, que contraria as obviedades.

Recuar, mesmo em questões mínimas, é impensável. É que do outro lado do balcão aguardam – com a faca entre os dentes e um sorriso irônico – os que chamamos de adversários. Prontos a nos ridicularizar. São vítimas do mesmo mal que nos atinge: o orgulho desmedido alimentado por suas certezas. Para eles, somos o inferno, o outro a derrotar, a “esquerda” adoentada ou a “direita” transtornada. E vice-versa.

Duvidar, questionar, refletir, ceder um pouco? Fora de cogitação. Ainda mais nestes tempos em que se torna obrigatório esmagar o outro, escarnecer dele, exibir-lhe sem pudor a suposta ignorância.

Criamos um círculo vicioso e não sabemos como rompê-lo. Voltemos, pois, à hübris.

O homem dominado pela hübris deseja completo controle. Já não quer persuadir (palavra cara à retórica): quer governar a mente alheia e ali estabelecer seu reino. Impõe seu ponto de vista, pois se imagina detentor de toda virtude. Ele, apenas ele, pode salvar o país e os outros homens de cair nas garras de seus oponentes.

Poderosos e inexpressivos compartilham o mesmo roteiro.

Talentosos dramaturgos flertam com o abominável e pisoteiam a própria trajetória; chefes de estado se rebaixam a indignidades e mesquinharias; diplomatas apelam para a truculência; pacifistas aderem ao nós-contra-eles; honestos cidadãos defendem rematados corruptos; inteligências destacadas se fazem de cegas em face de monstruosos esquemas de desvio do dinheiro público; professores emudecem perante genocídios; cientistas se curvam ao fanatismo e renegam a ciência consolidada, ofendendo a memória dos gigantes que enfrentaram fogueiras para que sejamos livres.

Quem lhes dirá que algumas aparentes certezas são frágeis? Quem os convencerá da imperiosa necessidade de enxergar os políticos não como ídolos, mas como homens comuns encarregados temporariamente de determinadas tarefas e pagos pelos nossos impostos?

Que digo? Não há velhacaria ou gesto vergonhoso que faça uma parte de nossa gente reconhecer que seus deuses políticos não são perfeitos. E é por isso que cada vez mais vemos – nos atores dessa tragédia nacional chamada polarização – a curiosa atitude de dar apoio a qualquer coisa, por mais insana que seja; de oferecer desculpas e explicações para os atos mais vis.

É que a húbris compromete o discernimento. Este seria capaz de segredar-lhes: é possível continuar a defender seus pontos de vista, ideologias e políticos preferidos sem abraçar a agenda completa ou chancelar atitudes tenebrosas. É possível fazê-lo, todos sabemos. Exceto quando o desmedido orgulho prevalece.

Sobra até para os que, assustados com o que vêem, buscam o caminho do meio em sagrado território no qual as emoções são submetidas à autoridade da razão. Em vão. Desabam-lhe sobre a cabeça as mesmas injúrias lançadas sobre aos supostos inimigos. Explicável: o fanatismo só enxerga em branco e preto.

Fanáticos são narcisos, embevecidos com o próprio reflexo, mergulhados na volúpia de si mesmos. Não admitem questionamentos à sua visão. Querem dirigir todos os aspectos da vida coletiva – arte, cultura, economia e voto. Incapazes de reconhecer qualquer boa qualidade no outro, ridicularizam as preocupações alheias. Se não são as suas agendas, são certamente desprezíveis – imaginam.

Pagarão pesado tributo. É que toda forma de violência exige que o próximo ataque traga novas formas de brutalidade. Uma palavra ferina aqui, um insulto ali, um deboche mais à frente, e logo palavras já não são suficientes. Faz-se necessário cuspir na face, acertar a bofetada, humilhar sem piedade. É preciso sangrar o outro, varrê-lo das vistas, esmagá-lo. Direita e esquerda assumem a aparência de céu e inferno na cosmogonia do maniqueísmo.

Desapercebidos da ratoeira, ofertam neste altar impuro o que têm de melhor: talento, inteligência, solidariedade. Centram a existência numa luta que os consome lentamente – como um câncer de alma.

O oponente já não é visto como um ser humano trilhando a jornada da existência. Já não há compatriotas. Somente inimigos a derrotar. Riem-se, novos visigodos, a pisotear coisas finas e caras, como a nossa humanidade.

Sobre eles reina, soberana, a hübris. Mestre das marionetes, puxa cordões, brinca de por escamas sobre os olhos.

Fazem-me recordar um belo trecho de Milton:

“Oh! que vergonha para a estirpe humana!

Firme concórdia reina entre os demônios:

E os homens, na esperança de alcançarem

A ventura do Céu, vivem discordes,

A racional essência desmentindo!”

União, entendimento, cooperação, razão, solidariedade são o caminho – concordo com o poeta. Demônios não são os compatriotas. São os monstros internos, que incorporamos graças às douradas palavras de alguma serpente e que alimentamos diariamente, hospedeiros dóceis que somos.

O antídoto grego para a hübris? Euthymia (serenidade), sofrosine (moderação) e o autocontrole. Sob estas, a discussão política, a natural indignação e o desejo de justiça vicejariam sem que nos convertêssemos em desequilibrados caricatos.

Mas quem, nestes tempos, quer tais virtudes? Para os que se movem nas sombras da hübris, está em curso uma nova Cruzada na qual eles são a luz que combate trevas ameaçadoras. Cada um dos oponentes nesta luta carrega a certeza de que detém o Santo Graal capaz de varrer a miséria e instalar novos tempos. Creem-se a face do bem, límpida e clara, a salvação de tudo, os grandes redentores.

Não se dão conta de que repetem a trajetória de Lúcifer de Milton, que de Estrela da Manhã converteu-se em Satanás, o adversário, personificação de todo o mal.

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Ilustração: Gustave Doré, Representação de Satanás em “Paraíso Perdido”.