No dia 11 de maio de 2020, o Brasil registrou 168.331 casos confirmados de novo coronavírus, com 11.519 mortes. A edição de hoje é dedicada à memória do médico Antonio Augusto Alves Maciel. O psiquiatra morreu ontem (11) no Hospital Santa Joana, no Recife.

Os destaques do noticiário são as medidas editadas pelo governo federal, que incluiu, entre os serviços considerados essenciais durante a pandemia, as academias esportivas, salões de beleza e barbearias. O ministro da Saúde, Nelson Teich, foi apanhado de surpresa. Também integram esta edição estatísticas, notícias sobre fraudes e golpes de quem se aproveita da pandemia para lucrar.

Na coluna Palavra de Médico o texto reflexivo do Dr. Karl (pseudônimo) sobre o padrão “vidro fosco” das imagens radiológicas dos pulmões afetados pelo novo coronavírus. Igualmente imperdível é o depoimento de um dos ícones da Medicina brasileira, a cirurgiã Angelita Gama. Ela deu entrevista após deixar o Hospital Alemão Oswaldo Cruz (SP), onde ficou 50 dias internada na UTI, para tratamento da Covid-19.

A imagem do dia vem da Inglaterra, onde uma nova obra de Banksy mostra a gratidão britânica pelos profissionais do Serviço Nacional de Saúde (NHS) durante a crise do coronavírus. O desenho mostra um menino que escolheu o boneco de uma enfermeira como super-heroína, e não o boneco do Batman ou do Homem-Aranha.

A pintura do misterioso artista apareceu no Hospital da Universidade de Southampton, no sul da Inglaterra, na quarta-feira (6). Uma imagem da obra também foi publicada na página de Instagram de Banksy, com a legenda “Quem Vira o Jogo”.

Palavra de Médico

Vidro fosco – I

Karl

A transparência pode ser entendida como o atributo que têm as coisas que deixam ver através de si. Nem sempre uma virtude. Transparências por vezes são indesejadas e, por essa razão, o engenho humano as transforma em opacidades recatadas. Contudo, o caso do vidro é mesmo especial. Nascido da assombrosa fusão da sílica com a soda, elementos de propriedades visuais singelas, sua natureza é a translucidez obscena, a visão límpida e ao mesmo tempo intangível de uma realidade presente. Por isso o tornamos baço na esperança de que alguém, ao perceber o paradoxo dessa condição, surpreenda-se e que dessa surpresa possa surgir, quem sabe, algo como um sentimento de elegância, quando estamos no campo da estética, ou algo como o conhecimento, quando tratamos de descrições teóricas da natureza. Vai depender da chave cognitiva intencionada.

Em contrapartida, alguém uma vez já disse que a Medicina está imersa em metáforas e é verdade. Que dizer, a título de exemplo, de termos como “murmúrio vesicular” (sons respiratórios normais) e “sopro” (sons cardíacos anormais)? As descrições radiológicas pulmonares, em especial, são ricas em comparações diversas. “Árvore em brotamento”, “favos de mel” e “vidro fosco”. Vejam só: vidro fosco. Quando começaram a
chegar as descrições de casos de um estranho e preocupante tipo de pneumonia na cidade de Wuhan (província de Hubei), na China continental, a partir de dezembro de 2019, ninguém poderia imaginar que o tal vidro fosco se tornaria quase que uma assinatura viral, impressa nos
filmes radiológicos e nas telas dos computadores.

Entrei em contato com as imagens pulmonares em vidro fosco no final do verão de 2020. A princípio chamavam a atenção pela exuberância incomum. Depois, pela repetição quase monótona dos padrões nos inúmeros pacientes que tivemos a oportunidade de acompanhar. A tal ponto que, mesmo com os exames comprobatórios negativos, tínhamos certeza de com quem estávamos lidando ali.

Imagens radiológicas são produzidas pela impressão causada por raios
invisíveis – os Raios X – em superfícies sensíveis de modo que, penetrando nas profundidades orgânicas dos corpos, fazem ver o opaco interior da vida. O pulmão é uma superfície marcadamente redobrada sobre si o que cria pequeninos espaços aéreos – os alvéolos – preenchidos por ar. O ar é altamente permissivo aos raios X, o que já não ocorre com os líquidos, a gordura e muito menos com os minerais ósseos. Tal diferença de densidade permite que os raios imprimam diferentes padrões nos filmes e forneçam uma miríade de tons que vão do branco-neve ao preto-carvão. O vidro fosco tomográfico é produzido por um aumento leve na densidade do pulmão que preserva a imagem dos brônquios e vasos pulmonares, proporcionando um aspecto branco “jateado” daquilo que, caso contrário, deveria ser escuro como a noite. Tem mais a ver com as finas membranas que constituem as paredes dos alvéolos que com os espaços aéreos por elas delimitados. Quando são estes últimos os principais acometidos, o padrão resultante é diferente, mais parecido com o de uma “condensação”, uma opacificação alva cuja homogeneidade só é quebrada pelos pobres brônquios imersos na
inflamação mas preenchidos ainda por ar que, todavia, já não vai a lugar nenhum. Esse é o padrão característico das pneumonias chamadas “típicas”. Mortíferas desde sempre, sem escolher idade ou credo, mas pictoricamente bem diferentes da COVID-19. Se as imagens pulmonares
produzidas pelo novo coronavírus não são propriamente originais, dado que suas primeiras descrições coincidem com a invenção dos tomógrafos de alta resolução, coisa da década de 80, o fascínio e o temor que provocam provém de sua monotonicidade e intensidade nos pacientes
graves, como já se disse, mas também de sua quase completa ausência na grande maioria dos casos acometidos que permanecem, assim, assintomáticos. Ainda não se conhecem os determinantes de tal comportamento, mas sabemos que são democraticamente distribuídos entre os vários segmentos da sociedade: em que pese a mortalidade ser comprovadamente maior nos menos favorecidos, isso se dá mais por dificuldades de acesso ao cuidado e maus tratos prévios que pela diferença de intensidade do processo patológico.

II

Envolvido que estava no cuidado aos pacientes, fui me dar conta apenas algum tempo depois da inusitada combinação de particularidades que constitui a COVID-19. As proporções globais e os números colossais, o contágio veloz e a vulnerabilidade imunológica, o isolamento social e a
ausência de terapêutica, a marca radiológica cristalizada numa metáfora visual… Tal mistura de concepções bate de frente em nossa atual noção de mundo. Esse mesmo mundo tão vasto e acessível e que agora se torna difícil, restrito, frágil e perigoso. De todas as maneiras possíveis de
penetrar nessa coesa estrutura que constitui o corpo conceitual da pandemia, escolhi logo a porta dos fundos.

Não sou epidemiologista, nem tenho formação em sociologia. Me restam as imagens impactantes e seus nomes. Trata-se, portanto, de desvelar o que, num certo tipo de linguagem descritiva da realidade pretensamente literal, permanece oculto, na esperança de que tal desvelamento ponha a nu as mazelas às quais nos apegávamos inadvertidamente. Cabe perguntar, assim, o que na metáfora do vidro fosco presente nas tomografias computadorizadas dos pacientes acometidos pelo novo coronavírus embaça nossa visão? Qual realidade ela procuraria preservar como vidro opaco que é? Seria possível drenar dela algum tipo de elegância ou conhecimento?

Leia o artigo do Dr. Karl clicando no do blog da Unicamp, onde há imagens do padrão vidro fosco de pacientes atingidos pela Covid-19

Estatísticas

Segundo o Ministério da Saúde, o número de infectados no Brasil chegou a 168.331 pessoas, com mais 5.632 novos registros da doença em 24 horas. Os recuperados totalizam 67.384 e outros 89.429 estão em tratamento. No mundo, a pandemia já infectou 4.190.817 pessoas e matou 286.613. São considerados recuperados 1.463.826.

No Brasil, as mortes por Covid-19 estão concentradas nos estados de São Paulo (3.743), Rio de Janeiro (1.770), Ceará (1.189), Pernambuco (1.087) e Amazonas (1.035).

Eis o número de óbitos nos demais estados: Pará (708), Maranhão (399), Bahia (211), Espírito Santo (196), Paraíba (139), Alagoas (138), Minas Gerais (121), Paraná (111), Rio Grande do Sul (105), Rio Grande do Norte (92), Amapá (73), Santa Catarina (69), Goiás (49), Rondônia (47), Acre (45), Piauí (45), Distrito Federal (44), Sergipe (37), Roraima (24), Mato Grosso (19), Tocantins (12) e Mato Grosso do Sul (11).

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