No dia em que o Brasil ultrapassou 90 mil mortes por Covid-19, registrando mais de 2,5 milhões de pessoas infectadas, esta edição é dedicada ao drama dos brasileiros que vivem na região amazônica.

Quem conhece a Amazônia sabe do abandono que pesa sobre a população de toda a região. Vale para todos os segmentos – educação, saúde, energia, segurança pública, saneamento, transportes, comunicações e serviços. Do primeiro império aos dias atuais, não se tem notícia de um só governo brasileiro que tenha dispensado atenção real à região e sua gente.

O amazônida é, antes de tudo, um desprezado. Por governos, pelo mundo político e por uma grande parcela dos demais brasileiros, que mal conhecem a região mais famosa do país e com a qual se relacionam via clichês.

Questões graves, como fiscalização adequada, combate ao desmatamento, fechamento de garimpos ilegais e respeito aos povos indígenas costumam ser vistas pelas lentes embaçadas dos óculos de má qualidade oferecidos aos politicamente míopes.

São repetidas há décadas e jamais cumpridas as promessas de zoneamento econômico-ecológico, estudos sérios sobre desenvolvimento sustentável, compensação adequada às populações afetadas por grandes obras infra-estruturais ou de exploração de seus imensos recursos.

A Amazônia atravessou décadas mergulhada em abandono e pobreza. De nada lhe vale abrigar a maior província mineral do planeta (Carajás), um bioma extraordinário e o maior aquífero mundial em volume de água, capaz de abastecer a Terra inteira por 250 anos (Alter do Chão), entre outros tesouros cuja magnitude deveria colocá-la no centro dos cuidados nacionais. Mas se esse almoxarifado natural sequer consegue ver materializados os recursos previstos no Orçamento Geral da União, que dirá planos de longo prazo.

Neste panorama, não são novidade serviços médicos deficientes, profissionais insuficientes, precárias unidades de saúde e falta de medicamentos. Agora imagine tudo isso em um cenário de Covid-19.

Ribeirinhos, moradores das cidades e indígenas morrem diariamente sob o olhar consternado e impotente de médicos, enfermeiros e familiares. Esta semana , o jornal americano The New York Times fez uma reportagem contundente (leia aqui), na qual as fotografias de Tyler Hicks e o texto de Julie Turkewitz e Manuela Andreoni traduzem de forma eloquente as dores superlativas que atingem a região.

Os descendentes dos primeiros povos do Brasil sufocam e se apagam, mansos, quietos. E não somos capazes de assisti-los ou sequer confortá-los. Embora a pandemia dê mostras de queda na região Norte, ainda há muitos doentes. Um total de 113 povos indígenas da Amazônia brasileira já foram atingidos pela doença.

Esta edição traz diversas reportagens e artigos acerca do impacto da Covid-19 sobre a população da Amazônia Legal, com ênfase nos povos indígenas. Estes, ainda hoje, são alvo de indisfarçável preconceito, como demonstra o caso apurado pelo Ministério Público em Mato Grosso, no qual áudios que circulam via WhatsApp trazem a frase “Isso não é gente” referindo-se aos Xavantes.

Já se nasce, na Amazônia brasileira, sob o signo do desamparo. A pandemia confirmou a regra e expôs a face mais cruel do preconceito e da indiferença.

***

A foto que a ilustra esta edição foi feita por Joedson Alves/EPA na aldeia Yanomami, em Roraima.

Boletim da COIAB mostra relação de povos indígenas espalhados nos nove estado que já foram atingidos pelo novo coronavírus.  — Foto: Divulgação/COIAB

Conheça a plataforma de monitoramento da situação indígena na pandemia do novo coronavírus e acompanhe a evolução do noticiário, com o tratamento dispensado aos indígenas brasileiros.

Notícias

Brasil passa de 90 mil mortes pelo novo coronavírus. País conta 1.554 óbitos registrados em 24 horas e 2.555.518 diagnósticos de Covid-19. Leia.

‘Isso não é gente’: os áudios com ataques a indígenas na pandemia e que se tornaram alvos do MPF. Leia.

STF marca para segunda-feira julgamento sobre medidas de contenção de Covid-19 em aldeias indígenas. Leia.

Coronavírus já atinge 11 povos indígenas de Rondônia, aponta entidade. Leia.

Coronavírus entre indígenas: casos disparam e 129 testam positivo em aldeias de Aquidauana. Leia.

Operação atende indígenas da etnia Xavante no Mato Grosso. Leia.

Governo acelerou publicação de atos sobre meio ambiente no início da pandemia, diz jornal Folha de São Paulo. Leia.

Como povo indígena de Mato Grosso se viu no novo epicentro da pandemia de covid-19 no Brasil. Leia.

Os Yanomami contra o coronavírus (e contra a diarreia, as lombrigas e os garimpeiros…). Leia.

Na Amazônia, as bibliotecas estão sendo incendiadas. A penetração do coronavírus ao longo do rio Tapajós, no Pará, está matando os anciãos dos povos tradicionais. Com eles, a doença leva embora história e memória. Leia.

“O coronavírus está quebrando a nossa crença”, o luto imposto aos povos indígenas na pandemia. Leia.

Outras notícias sobre a pandemia

Redes sociais retiram postagem replicada por Trump por promover desinformação sobre o novo coronavírus. Leia.

Cearenses recuperados continuam a ter sintomas ou voltam a ter manifestações da Covid-19 após meses da infecção. Leia.

Prefeitura de SP adia carnaval 2021 devido ao coronavírus. Leia.

Comitê alertou Ministério da Saúde sobre risco de desabastecimento de remédios contra a Covid-19. Leia.

Ivermectina só poderá ser vendida com receita enquanto durar a pandemia, decide Anvisa. Leia.

‘Não seja blasé com a covid-19’, diz piloto que ficou 2 meses em coma e perdeu movimento das pernas. Leia.

Caso único, Brasil passa de 200 mortes de grávidas e puérperas por Covid-19. Leia.

Campanha “alert(ar)” pretende conscientizar para sintoma silencioso da Covid-19. Leia.