Sonia Zaghetto

Naquela terra onde o corpo de meu pai repousa,

os bichinhos se alimentam dos olhos que beijei,

das mãos que me abençoaram,

do sorriso que nunca esqueço.

Aos poucos mergulha na natureza.

Ossos, bigode, cílios e dedos tornam-se pó,

misturados a insetos e raízes.

O corpo de meu velho agora é terra vermelha.

Mas, ali,

na esquina onde tudo se torna imponderável,

sei que seus olhos me seguem,

mansos e doces como sempre.

Aguardo, quase inquieta,

pelo dia em que te honrarei de novo.

E tu. Ah, tu abrirás os braços,

e eu serei criança outra vez.

—-

Pai, há doze anos esse dia sempre inicia com o vácuo de abrir os olhos e não ter mais o feliz dever de te abraçar, entregar o presente e ficar para o almoço.  Um dia vazio em que só me resta fechar os olhos e abraçar o teu pijama que guardei desde aquele dia terrível em que amanheci sem ti. Dia em que, lembro bem, o sol já não me aquecia e uma dor desconhecida pôs suas garras sobre o meu peito e o rasgou lentamente. Hoje cato as lembranças de uma rede em que me explicavas sobre a máquina do Gutemberg enquanto eu fazia “penteados” muito elaborados nos cabelos do teu peito largo. A tua risada e o som de tua voz aos poucos vão se apagando e tento, quase em desespero, retê-las.

No dia terrível da tua partida, compreendi em profundidade as últimas palavras de van Gogh – La tristesse durera toujours (a tristeza durará para sempre). Naquela manhã eu te li este poema do Manuel Bandeira, tão cheio de lembranças minhas e tuas:

Pardalzinho

O pardalzinho nasceu
Livre. Quebraram-lhe a asa.
Sacha lhe deu uma casa,
Água, comida e carinhos.
Foram cuidados em vão:
A casa era uma prisão,
O pardalzinho morreu.
O corpo Sacha enterrou
No jardim; a alma, essa voou
Para o céu dos passarinhos!

Hoje, digo apenas que te amo, pai. Toma as minhas palavras de amor – meu presente é o meu poema.

Outros textos para meu pai;

Ninguém cala esse amor (sobre ser botafoguense)

Manoel