Ontem, ao acordar, encostei a testa no vidro da janela e vi uma fina nuvem de vapor se erguendo do chão. Um pardalzinho pousou no galho sem folhas da árvore e virou a face na direção do nascente. O vento frio da manhã lhe soprava as penas. Carícia de dedos gelados sob os primeiros raios do sol. Nem um som se ouvia. Hipnotizada, observei os dois – o passarinho arrepiado e a água evaporando em direção ao céu em pequenos arabescos de névoa – e me senti intrusa.

Uma atmosfera de sonho e langor me toma nessas horas, minhas mãos esfriam e um arrepio me percorre a coluna. A natureza sempre me parece sagrada demais para ser perturbada pela minha curiosidade. Embora eu dela faça parte, em geral, sinto-me contraventora, avançando sobre um território que deve permanecer puro e selvagem. Como naquela cena do casamento das kitsunes no filme Sonhos, de Akira Kurosawa.

A história narrada por Kurosawa informa que quando o sol está brilhando e uma chuva leve cai sobre a terra, é a ocasião em que as raposas fazem suas procissões de casamento. Um menininho é advertido pela mãe que ninguém pode assistir. Ele ignora o aviso e vai para a floresta. Escondido atrás de uma sequóia gigante, vê o desfile de raposas avançando muito lentamente através da névoa e do rendado da chuva. Uma flauta de bambu e tambores suaves marcam o compasso. As raposas caminham com movimentos estilizados, máscaras e roupas que remetem ao clássico teatro Nōh. Há um clima de tensão e mistério na procissão de casamento. Algo sombrio, mas estranhamente irresistível. Não se consegue parar de olhar, embora pareça profano fazê-lo. A música cessa de repente e as raposas param. Agachadas, em posição de defesa, olham em torno. Animais, adivinham a presença do menino, farejam-no. Ele se esconde atrás do corpo vermelho da sequoia, mas elas o veem. Ele foge e seu castigo será perder a vida. A natureza é implacável e a metáfora, perfeita.

A mãe diz ao menino que ele deve procurar as raposas, que vivem sob o arco-íris, para lhes pedir perdão. Mas avisa: “Elas geralmente não perdoam. Você deve estar pronto para morrer”. Ele sai, pronto a encontrar seu destino. O caminho é um campo de flores, de um colorido exuberante. De lá, o menino vê um arco-íris a se estender sobre montanhas muito verdes. Uma visão paralisante e mágica; um recado de esperança da mesma natureza violada.

A ambivalência da relação com a natureza selvagem me toma muitas vezes. Penso que seja fruto da minha necessidade de um espaço fora da realidade urbana/humana e dita civilizada que me esmaga. O que testemunhei em 2020 me segreda que preciso de uma rota de fuga, um espaço santificado, um toque de fantasia que me ajude a lidar com as asperezas do atual cenário de explícita crueldade, fartas doses de cinismo e os horrores da dessensibilização frente à tragédia coletiva.

Compreendo aos poucos o meu fascínio aterrorizado pela natureza. Este sentimento vívido, desorientador e cruel, é a tradução da minha solidão. Não a desolada solidão de pandemia, quarentena, isolamento, mas a solidão que carrego como parte essencial de mim. Meu estar comigo mesma – sei agora – só se completa no silêncio de uma montanha, nas sombras de uma floresta, na visão límpida da via láctea, no rumor das águas de Kinneret. Meu espaço mágico é a natureza. Ali me refugio, mesmo que traga o coração disparado de medo do seu poder.

Há um arco-íris no horizonte. O sol brilha entre as gotas de chuva.

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Assista aqui à cena do filme de Kurosawa:

As raposas (kitsunes) são personagens importantes no folclore japonês. As histórias retratam as raposas lendárias como seres inteligentes e possuidores de habilidades paranormais que aumentam à medida que ficam mais velhas e sábias. De acordo com o folclore Yōkai, as raposas têm a habilidade de mudar para a forma humana. Enquanto alguns contos populares falam das kitsunes usando essa habilidade para enganar os humanos, outras histórias as retratam como guardiões, amigos, amantes e esposas fiéis.

Quanto mais caudas um kitsune tiver – eles podem ter até nove – mais antiga, sábio e poderosa ela será. Por causa de seu potencial poder e influência, era costume algumas pessoas fazerem sacrifícios a elas como a uma divindade.

Por outro lado, as raposas eram frequentemente vistas como “animais feiticeiros”, especialmente durante o supersticioso período Edo (1603-1867), e eram consideradas goblins, em quem não se podia confiar (semelhante a alguns texugos e gatos).