Eu sou a Rainha, a colecionadora de tesouros, primeira dentre os que merecem adoração.

Os deuses me puseram em tantos lugares, com muitas casas para entrar e morar.

Eu forneço o alimento que os nutre. Cada homem que vê e respira, ouve a minha voz.

Eles não sabem, mas eu resido na essência do Universo.

Eu curvo o arco de Rudra, para que sua flecha atinja os que não são meus devotos.

Eu desperto e ordeno a batalha interna.

No cume do mundo, eu ponho o céu, o Pai. E minha casa está nas águas, no oceano que é Mãe.

Estou em todas as criaturas existentes e as manifesto no meu corpo.

A consciência eterna e infinita sou eu. Minha grandeza habita em tudo.

(Rig Veda, canto X. Fragmentos de hino a Durga)*

Querido Theo,

Esta carta é para lhe contar de um mundo secreto. Nele há seres enormes como uma casa e outros minúsculos como a unha do seu dedo mindinho. Alguns são ainda menores, tão pequenos que os olhos da gente nem conseguem enxergar.

Deixe-me lhe contar o que narraram os antigos sobre este reino de sonhos, onde força e poesia estão em toda parte, do alto das montanhas ao bico dos beija-flores.

É uma terra completamente dominada pela cor. Dunas alaranjadas no coração dos desertos; névoas brancas cobrem florestas com um véu de noiva; verdes tingem a pele das plantas; árvores de vermelha seiva atravessam os séculos; arco-íris riscam o céu nos dias de chuva fina; a neve estende cobertores brancos quando chega o inverno; e o sol se põe numa explosão de azuis, vermelhos e amarelos. Animais, plantas e flores vivem pintados para festas particulares; o mar se veste de verde e azul como se todos os dias fossem domingo.

Quando os humanos não estão vendo, os bichos desse mundo fazem coisas extraordinárias. Eles sabem de mistérios que os homens desconhecem.

Dizem que é de impressionar a expressão segura e os movimentos dos músculos poderosos das leoas e tigresas. E há uma invencível beleza nas borboletas de asas miudinhas a atravessar o oceano, pegando carona nos ventos. Lá embaixo, golfinhos pulam ondas só por diversão, tartarugas deslizam nas correntes marinhas e águas vivas flutuam em passos de balé. Em terra, corvos brincam de escorregar na neve e gatos dormem abraçados como se fossem uma bola de pelos.  

Alguns pássaros bailam para as suas namoradas, mostrando penas escondidas nos seus pescoços e cores que ninguém mais vê. Outros constroem casas muito altas, com pequenos enfeites de flores.

Há alguns que param tudo o que estão fazendo para sentir o perfume das flores (até fecham os olhos neste instante breve).

No mundo dos insetos são construídos reinos inteiros, com salas, túneis e labirintos. Os súditos alimentam suas rainhas com geleias reais, muito finas.

Alguns bichos conseguem chocar seus ovos no meio do gelo; outros conhecem o segredo para ficar dias inteiros sem beber água; alguns têm uma sacola na própria barriga para carregar filhotinhos já nascidos; e há os que sabem nadar (sem lanterna) no fundo mais fundo do mar profundo (onde nem a luz do sol é capaz de chegar). Existem, também, os que conhecem as estrelas e por elas se orientam para voltar, todos os anos, ao lugar em que nasceram.

Alguns animais desse reino parecem enormes e ameaçadores e se fica bem impressionado quando estão caçando. Nesse mundo, Theo, os bichos também morrem, e isso é bem natural. Todos os bichos caçam e alguns deles morrem para alimentar os outros. Mas saiba de uma coisa: no mundo dos bichos, só se caça porque é preciso comer. Necessidade, você sabe, fome, barriga vazia. Nenhum bicho mata por vingança ou vaidade; e não se conhece animais que tirem a liberdade de outros bichos só para vê-los em gaiolas.

Em sua sabedoria, os bichos sabem que morrer faz parte do ciclo. Tudo o que começa, um dia termina. Quando a morte vem (como aconteceu com aquele seu besouro) o corpo se desfaz em pedaços bem pequeninos que se juntam aos de outros seres e vão nutrir as plantas e alimentar outros bichos. Então, de uma certa maneira, eles só se transformam.

Os bichos do lugar que lhe falo procuram ser muito felizes todos os dias, enquanto estão no mundo. De alguma forma, sabem que cada célula do seu corpo nasceu há muito tempo, no coração de uma estrela perdida no Cosmos, e viajou pelo universo imenso, atravessou nebulosas, viu cometas com caudas de gelo e poeira a semear a vida nos mundos, meteoros em fogo, supernovas explodindo espetacularmente (numa outra carta – das que sua mãe escreve para você – ela vai lhe explicar a magnífica forma como as estrelas se despedem após uma longa vida).

De resto, os animais desse lugar são como todos os bichos que existem, inclusive nós, os humanos. Nascem, crescem, têm filhotes e cuidam deles igual os seus pais cuidam de você: educando, brincando, alimentando, protegendo e ensinando a viver. Os macacos, por exemplo, são os reis das brincadeiras, abraçam, fazem cafuné; e os elefantes enroscam a tromba nos seus filhos. Todos os bichos têm uma vida muito agitada e rica. Mesmo as lesmas e as joaninhas são dadas a fazer coisas engraçadas e bonitas quando acham que ninguém as observa.

Às vezes, no fim da tarde, quando estão sozinhos, até os leões espiam o sol se pôr. Deitam-se na savana, e quando o vento lhes agita os pelos longos, eles parecem muito relaxados.

Numa certa parte desse lugar encantado, bichos de pescoços compridos fazem desfiles para as namoradas deles. São muito espertos: eles pisam em águas tão limpas e calmas que parecem um espelho no qual se refletem as plumas cor-de-rosa. As namoradas ficam muito admiradas ao ver isso.

Em águas claras, outros bichos fazem danças, nadam, casam-se e à noite, de pança cheia, dormem no escurinho das suas tocas, sonhando com o azul do mar, as areias finas cheias de estrelas vivas, corais e algas tão compridas quanto um rabo de dragão.

Esse mundo, Theo, é o seu. Você é herdeiro dele. Tome posse do seu reino desde agora. Há outras crianças iguais a você, que têm respeito e curiosidade sobre a matéria da vida. Um dia, crescidos mas ainda com o coração puro e bom, talvez sejam vocês os que vão estudar a ciência dos bichos para amá-los ainda mais e bem cuidar desse lugar de maravilhas que hoje já lhes encanta.

Guarde no seu pequeno coração a compaixão pelos seres que não falam a língua dos homens.

E o paraíso, acredite, será aqui mesmo, na Terra.

Confio em você.

P.S. Nesta carta coloquei todos os segredos que ouvi. Eles são transmitidos apenas a pessoas muito especiais. Às vezes, deixam que nós, os escritores, escutemos algumas histórias para contarmos a crianças como você.  Não conte, por favor, a adultos que não acreditam na poesia que vive na natureza.

Nos links abaixo você verá imagens de tudo o que lhe falei. Está registrado pela sensibilidade de dois fotógrafos muito especiais: Ana Zinger e Vyacheslav Mishchenko. Espero que você goste deles. Também quero lhe sugerir assistir aos documentários da Disney sobre o nosso mundo e na Netflix os filmes sobre a beleza nosso mundo e apresentados pelo David Attenborough.

A fotografia principal foi feita por Dennis Jarvis no parque Jacques-Cartier, em Gatineau, no Canadá. E uma escultura feita de plantas e que se chama Mãe Natureza.

Abaixo coloquei algumas fotos da Ana Zinger, com a permissão dela, para lhe mostrar a beleza do mundo secreto dos bichos. Exceto pelas fotos dos flamingos bailarinos, todas as outras foram feitas pela Ana em viagens pelo Brasil e por vários países da África. Não deixe de ver na página dela outras fotografias incríveis.

  • Este hino em homenagem à deusa Durga foi livremente adaptado e editado. Ele também pode ser interpretado como uma ode à natureza. O Rig Veda foi escrito entre 1.700 e 1.100 anos antes de Cristo. É o documento mais antigo da literatura hindu