Quando a Indesejada das gentes chegar (não sei se dura ou caroável), talvez eu tenha medo.Talvez sorria, ou diga:– Alô, iniludível! O meu dia foi bom, pode a noite descer. (A noite com os seus sortilégios.) Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,A mesa posta, Com cada coisa em seu lugar.

Consoada. Manuel Bandeira

O dia virá.  Será breve ou uma agonia longa que me fará ansiar pelo fim?

Meu velho coração – que começou a bater quando eu ainda nem sabia de mim – então silenciará. Os dedos esfriarão e a cor fugirá dos meus lábios. Serei como cera, imóvel e sem o hálito da vida. Será o fim desta jornada.

Não se assuste com a descrição de meu destino e do seu. Temê-lo não altera o inevitável. Penso sobre a minha própria morte constantemente.  Escolhi fazer dela uma aliada para viver uma existência de plenitude. Ela virá e espero recebê-la com a mesa posta, a casa limpa, o coração em paz.

Alguns nem lhe pronunciam o nome. O que  temem? Que com sua morte desapareçam seus sonhos, pensamentos, leituras e aprendizados? Doerá saber que em duas ou três gerações terão evaporado os traços de sua passagem pelo mundo? Temem o desconhecido? O tempo desperdiçado? Lamentam pelo que fizeram ou deixaram de fazer? Sofrem pela separação dos amados ou pelo destino dos filhos pequenos? Incomodam-se diante de algo que, afinal, não podem controlar?

A morte é matéria fascinante que, bem explorada, engrandece a vida. Refletir filosoficamente sobre a própria finitude é pôr as coisas na perspectiva correta. Que seríamos sem ela a eventualmente nos recordar o que deveria ser óbvio: sofremos por coisas sem importância e perdemos tempo demais com tolices.Por vezes, a morte manda bilhetes de alerta. As doenças e acidentes que, por pouco, não nos matam são mensagens que sussurram: “Estou aqui. Não esqueça.” Advertências assim fazem soar de novo o ruído do relógio do Tempo. Quantos momentos ainda teremos?Gosto do desafio que é estar em um jogo no qual não controlo as regras. Jogo bruto, de surpresas que me empurram a um estado de humildade forçada e me põem no meu devido lugar. Reajo criando minhas próprias normas, todas internas.

Noto que muito tormento emocional na hora da morte é a pendência não quitada ou a culpa que se carrega. Por isso, minha regra número 1 é liquidar as dívidas a tempo, acertar as contas com o passado, aprender a perdoar a mim e aos outros,  encarar os arrependimentos, corrigir os escorregões e aparar as arestas. Faço por puro espírito de precaução: para não ter de correr quando a hora chegar. Pode não dar tempo.

Foi por pensar na minha morte que me dei conta de que, apesar dos milhares de tropeços e desacertos, eis-me aqui, carregando orgulhosamente o meu legado. O que realizei, os filhos que tive, as emoções que causei são minha contabilidade. Deles, só eu sei.

Entre as lições profundas que recebi ao pensar na morte está um recorrente sentimento de gratidão. Ele chega quando, de repente, me dou conta de que estou saudável, com a família ao lado, sem dor alguma. Ou nas tardes de sol, de chuva ou de neve, diante da natureza que pinta quadros, e eu me sinto plenamente feliz. Em ambos, algo me segreda: desfrute a vida agora, hoje, mesmo em meio às lutas e incertezas.Meu amigo Túlio Mendhes ampliou minha percepção. Mostrou-me que mesmo sem ser saudável, com um corpo crivado de dores, ossos de vidro e oxigênio conquistado a duras penas, ainda é possível ser festa, riso e vinho. Ah, Tulio querido, arauto da vida que, mesmo precária e frágil, ainda tem um sabor refrescante que vicia e se quer alongar.

Entre os fascínios nada lúgubres da morte estão a possibilidade de viver algo absolutamente sozinho, de transpor o umbral em direção ao desconhecido contando apenas consigo próprio. A coragem é algo para se orgulhar. Ainda que nada exista após a morte, naqueles breves segundos haverá a íntima satisfação de ter agido com dignidade e bravura. Uma pequena dádiva final a si mesmo. Você saberá. É suficiente.

Poderíamos morrer como alguns poetas e filósofos? Talvez sim. Alguns deles não escaparam ao sofrimento físico da hora final, mas mantiveram o espírito vivaz. Wilde reclamou do papel de parede. Leonardo da Vinci se foi dizendo que tinha “tanto a fazer”.

Tchekhov sussurrou “Estou morrendo” e o amigo médico lhe deu champanhe para que as bolhas o ajudassem a respirar. Posso ver o sorriso agridoce do escritor ao dizer para a mulher amada: “Há tanto tempo não bebo champanhe”. Deitou-se, fechou os olhos e partiu. Suavemente.

Manuel Bandeira, tuberculoso como Tchekhov, foi desenganado ainda na juventude, fez poema para pneumotórax e flertou com a hora final. Nada disso o impediu de viver, de escrever e de dormir com as moças de Pasárgada e do Brasil.

O poema que fecha esta crônica evoca um outro sábio e gentil poeta, Rabindranath Tagore. O indiano prêmio Nobel de Literatura de 1913, foi pródigo em fazer da morte uma amiga que o encontraria com o coração apaziguado por ter bem vivido.

E Sócrates? Sempre sorrio quando releio a morte de Sócrates  no Fédon. Riso de admiração, pois Sócrates está no controle de tudo. Encara de frente o momento, aproveita para explorar o assunto e testa os limites emocionais dos amigos. Impossível resistir  às lições de um filósofo morrendo.

Sorrio quando ele quebra, propositalmente, a solenidade da hora. É óbvio que está se divertindo um pouco com a situação. Logo no começo do livro, pede para retirarem da cela a mulher, Xantipa. Não quer morrer com gente gritando ao lado. Relembra aos alunos que se dedicar à Filosofia é se preparar para morrer. Permite-se esta última e suprema lição, vivida, exemplificada. Chega o carcereiro com o veneno. Sócrates conversa com ele muito gentilmente. Nova lição. Os alunos pedem que adie um pouco: Para quê? Nega-se. “Leva a taça aos lábios e com toda a naturalidade, sem vacilar um nada, bebe até a última gota”, escreve Platão (sempre leio isso com a respiração suspensa).

Os discípulos desabam. Diante da choradeira, o moribundo Sócrates protesta: “Que é isso, gente incompreensível? Mandei sair as mulheres para evitar esses exageros. Sempre soube que só se deve morrer com palavras de bom agouro. Acalmai-vos! Sede homens!“. Envergonhados, os rapazes param de chorar.

O filósofo caminha um pouco para “ajudar” a cicuta a agir rapidamente. Deita-se e narra a paralisia que se inicia pelos pés. De repente, puxa o pano com que cobrira o rosto e exclama o que seria sua última frase.

Expectativa.

O que seria? 

“Criton, devemos um galo a Asclépio. Não te esqueças de saldar essa dívida!”.(1)

“Assim farei. Vê se queres dizer mais alguma coisa”. A essa pergunta, já não respondeu. Decorrido mais algum tempo, estremeceu. Descobriram-lhe o rosto e tinha o olhar parado. Críton fechou-lhe os olhos e a boca.

E este foi o fim do homem que Platão afirma ter sido o mais sábio e justo dentre os que conhecera.

Sócrates deixou para a posteridade esta última frase enigmática. Ao morrer, pede que se faça um sacrifício justamente ao deus da Medicina (Asclépio se torna Esculápio no panteão romano). Até hoje se debate a última frase do velho grego. Sacrificava-se galos a Asclépio por graças alcançadas. Sócrates, fiel às suas convicções, estaria testemunhando sua gratidão por livrar-se da carga da existência?

O que aprendo com Sócrates e os poetas é a fascinante constatação de que tudo permanecerá exatamente igual  quando não mais estivermos aqui. Algo muito bem traduzido em um poema de Alberto Caeiro: 

“Quando vier a Primavera, se eu já estiver morto, as flores florirão da mesma maneira e as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada. A realidade não precisa de mim. Sinto uma alegria enorme ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma”. 

Retirar-se da vida sem alarde, sereno e grato por ter estado aqui, sentido fluir o sangue nas veias, escutado o próprio coração batendo forte, provado o salgado das lágrimas de dor ou de gargalhadas, saboreado palavras de amor. Uma formidável experiência.

Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa, apreciava que tudo fosse real e estivesse certo. Eu também. De seu poema retirei meu epitáfio: “Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem. Podem dançar e cantar à roda dele. Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências”.

Sim, Alberto-Fernando: o mundo vai girar sem nós, como sempre fez. E isso é bom.

Post Scriptum: Por que não hoje?

Perguntei aos meus amigos, como na velha canção: e se só lhe restasse esse dia?Responderam que abraçariam os amados, filhos, pais, maridos, esposas, cachorros e gatinhos. E se despediriam dos amigos, telefonariam para falar de amor e dariam conselhos aos filhos. Alguns pediriam perdão aos que foram ofendidos, buscariam o pai distanciado. Outros deixariam tudo arrumado para não dar trabalho a quem fica.

Houve os que meditariam, os que olhariam o horizonte, os que tomariam sorvete, beberiam vinho, ouviriam música e comprariam roupa nova.

Um deles planejou em detalhes: um dia inteiro em que daria banho na filha e lhe pentearia os cabelos, amaria a esposa, compraria pão quentinho e esperaria o fim vendo os últimos raios de sol.Os amigos religiosos ou espiritualistas se declararam calmos. Têm certeza que após a morte haverá vida, luz, novas oportunidades, recomeços. Os ateus igualmente tranquilos, algo epicuristas. Dor aguda? Apenas dos que tem filhos pequenos.

Ninguém mencionou dinheiro, política, brigas de Facebook. Como na morte real, as banalidades e impermanências do mundo se mostraram sem importância. Restou a realidade traduzida nas quatro letras da palavra amor.

Espero que, quando chegar a sua hora, meus amigos se despeçam da vida em paz, como desejaram. E secretamente torço para que ponham seus projetos de último dia em prática agora, sem precisar que o lobo da morte lhes morda o calcanhar.

ÚLTIMA PRIMAVERA

Antes que o dia termine,
consente-me este desejo:
vamos colher
flores da primavera
pela última vez.
Das muitas primaveras
que ainda visitarão
tua morada,
concede-me uma,
– implorei.

Todo este tempo,
não prestei atenção
às horas,
perdidas e gastas à toa.

Num lampejo
de um crepúsculo,
li nos teus olhos agora
que meu tempo está próximo
e devo partir.

Assim, ávido, ansioso,
conto um por um
– como o avarento o seu ouro –
os últimos, poucos dias de primavera
que ainda me restam.

Não tenhas medo
Não me demorarei muito
no teu jardim florido,
quando tiver de partir,
no fim do dia.

Não procurarei lágrimas
nos teus olhos
para banhar minhas lembranças
no orvalho da piedade.

Ah, escuta-me,
não te vás.
O sol ainda não se esconde.
Podemos permitir que o tempo
se prolongue.
Não tenhas medo.

Deixa que o sol da tarde
olhe por entre a folhagem
e se detenha um momento
brilhando no negro rio
do teu cabelo.

Faze o tímido esquilo,
perto do lago,
fugir de repente
ao estrépito de teu riso
que irrompe
com descuidosa alegria.

Não procurarei
retardar teus rápidos passos,
sussurrando esquecidas lembranças
aos teus ouvidos.

Segue teu caminho depois,
se teu dever é seguir, se tens de seguir
calcando folhas caídas
com teu andar apressado,
enquanto as aves que voltam
povoam o fim do dia
com o clamor dê seus gritos.

Na escuridão crescente,
tua distante figura
irá fugindo e apagando-se
como as últimas frágeis notas
do cântico da tarde.

Na noite escura,
senta-te à tua janela,
que eu passarei pela estrada,
seguindo o meu trajeto,
deixando tudo para trás.

Se te aprouver,
atira-me
as flores que te dei
pela manhã,
murchas agora ao fim do dia.

Isso vai ser
o último e supremo presente:
tua homenagem
de despedida.
Rabindranath Tagore , Puravi. Tradução Cecília Meireles.

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(1) Κρίτων, τω Ασκληπιώ οφείλομεν αλεκτρυόνα, απόδοτε και μη αμελήσετε.