Deitada no assoalho, a filha de Fernando Guarany gemia. O pai lhe enxugava a testa encharcada de suor e controlava o tempo das contrações. Lágrimas de dor e medo corriam pelo rosto de Nair. Estava apavorada com aquele parto tão demorado.  

Horas depois, a situação se agravara. Do lado de fora da porta, D. Sinhá não tinha coragem de entrar. Ajoelhada diante da imagem da Virgem, suplicava pela filha. Naquele lugar distante, sem médico, sua caçula lutava pela vida.

Fernando era um parteiro experiente. Trabalhara por anos auxiliando o médico do hospital Simões Lopes, em Clevelândia. Chamara para ajudá-lo um amigo da família, o comerciante Domingos. Este carregava as bacias, fervia água, torcia as toalhas. Os dois homens se entreolhavam, com sombra no olhar – a criança não vinha.

Quando a esperança já se convertera em desânimo, um grito lancinante da mãe: “Nasceu!” O velho Guarany pegou a neta nos braços. Prematura, um fiapo de gente que cabia em suas mãos de gigante. Virou-a para que chorasse, limpou-lhe as narinas minúsculas, mas o bebê arroxeado permaneceu imóvel. Com os olhos molhados de dor, pegou a criança e, com extremo cuidado, a depositou numa bacia.

Nair tudo compreendeu. Apoiada nos cotovelos, ergueu lentamente o tronco e suplicou ao pai para entregar-lhe a pequena – mesmo que por pouco tempo. Com delicadeza, Fernando colocou-a nos braços da mãe. Lágrimas mansas lhe desciam do rosto, quando encostou a filha no peito e a embalou. Notou um pequeno movimento. Era quase imperceptível, mas real. Nair mal respirava, morta de medo daquela esperança que lhe rebentava no peito. Buscou a mão de seu pai e colocou-a sobre as costas da criança.

Emocionado, Fernando cobriu a recém-nascida com rolos de algodão, para aquecê-la. D. Sinhá caiu de joelhos diante do oratório. Vivera a menina Edinéia. Um pequeno milagre, desses que o tempo se incumbe de apagar da memória dos homens.

Horas depois, o amigo Domingos preparava a água morna para o primeiro banho da recém-nascida. No fundo da bacia, colocara as joias da família. Crendices de um tempo, em que se imaginava que criança banhada em ouro seria rica.

Pelo resto da vida de Nair, a filha seria tratada com extremado cuidado. Diziam na família que a única palmada que recebera havia sido dada com um travesseiro de plumas. E nas perninhas.

 Quando Edinéia nasceu, sua mãe ainda não era o Anjo do Oiapoque. Houve um tempo em que o anjo havia sido criança e suas travessuras se tornaram lendárias entre as famílias de Clevelândia.

Nair era a caçula entre as filhas do casal Guarany. E, por ser caçula, tomou para si a tarefa de fazer todas as traquinagens inventadas e ainda por inventar no Núcleo Agrícola de Clevelândia.  No fim dos anos 1920, não havia criança mais agitada na região do Oiapoque. Subia em árvores, fugia da escola para nadar no rio, dava sustos nos irmãos e inventava mil formas de se rir de toda gente. Um sacizinho da fronteira, com pança de açaí e farinha, jeito sapeca e cabelos eternamente desgrenhados – assim foi imortalizada numa fotografia histórica que hoje integra o Acervo do ex-presidente Arthur Bernardes, no Arquivo Público Mineiro.

Sua rara habilidade para traquinagens chegou ao auge aos sete anos de idade, precisamente no dia em que a irmã completava 14 anos. Quite havia recebido muitos presentes. Bonecas de porcelana, com louros cabelos e olhos cercados de pestanas compridas. Vestiam roupas tão finas, sapatos e rendas de França, que Nair não resistiu: pediu-as à irmã.

– Deixe-me brincar com elas! Implorava, as mãozinhas gorduchas estendidas na direção das preciosas.  

Quite não só a ignorava, mas tripudiava. Brincava com todas as bonecas, sem emprestar nenhuma, imaginando em voz alta passeios e bailes, conversas e chás.

Do canto da sala Nair a espiava pelo rabo do olho. Mordia os lábios a cada provocação, risada ou brincadeira da irmã. Quando Quite guardou as bonecas, embrulhadas em papel de seda, nas belas caixas decoradas com flores, uma ideia brilhou no cérebro da caçula.

Uma semana depois, Quite descobriu que todas as bonecas haviam desaparecido. Nenhuma caixa à vista, nem traço das belezinhas de porcelana. Nair se fazia de sonsa.

– Foi ela, mamãe. Foi Nair. Tenho certeza! Soluçava a mais velha, inconsolável.

Procurou-se em toda a casa, revirou-se armários, gavetas e baús. Em vão. Nair não se dava por achada: parecia um querubim visitando a terra.

Três dias depois do desaparecimento, a mãe notou algo diferente no canto mais escondido do quintal. Entre as árvores do pomar, pequenas cruzes de madeira enfileiravam-se. D. Sinhá aproximou-se e contemplou o pequeno cemitério. Cavou um pouco da terra e descobriu as caixas agora convertidas em caixões de brinquedo.

Exumadas as bonecas, Nair admitiu a culpa. Não escapou do castigo. Foi confinada a um quarto. Perderia a festa da padroeira e a quermesse da cidade. Nem direito a jantar teria. Vinte e quatro horas de solidão. No quarto mal iluminado, apenas um cacho de bananas, cama, cadeira e uma estátua de Santo Antônio.

Nair olhou para o Santo, pensou em pedir que lhe desse juízo, mas encasquetou que o leve sorriso nos lábios da estátua traduzia algo nada cristão: um arzinho de bem feito! Decidiu ficar de mal com Santo Antônio. Duas horas se passaram, três, quatro, seis. Bocejos, preguiça, fome. Pendurado no telhado, o cacho de bananas douradas parecia cada vez mais apetitoso. Deveria haver quantas ali: umas trinta?

Quando no dia seguinte abriu-se a porta, a pequena saiu cabisbaixa. O narizinho arrebitado vinha murcho, apontando para baixo. Quite, triunfante, fez questão de testemunhar a humilhação da contraventora. Mas estacou, intrigada: podia jurar que vira um sorrisinho travesso nos lábios da caçula.

Ao entrar no quarto, não pode evitar o grito: Mas que blasfêmia! Agora vai ficar um mês de castigo!. Mãe e tias vieram correndo. Quiseram ficar bravas, mas a tarefa era árdua. O cacho de bananas, inteirinho, havia desaparecido. Somente o tronco balançava, pelado, pendurado na viga do teto.

Mas onde estão as cascas? Quite apontou com um gesto: artisticamente empilhadas, as cascas de banana compunham uma torre amarela na cabeça de Santo Antônio. Dessa vez a punição foi mais branda: apenas uma hora de joelho no milho. Quanto à dor de barriga, Nair jurava que era castigo do Santinho.

Na adolescência, as travessuras cessaram. Fez o curso de Observadora Meteorológica e passou a trabalhar no Núcleo Agrícola Cleveland coletando dados sobre nuvens e pressão atmosférica. Nas horas vagas ajudava o pai no hospital. Fazia exames, ajudava em partos, aprendendo os segredos da profissão. Nada cobrava daquela gente tão pobre.

Namorou por oito anos com Simeão Lemos, comerciante de Clevelândia que trabalhava como regatão. Com os garimpeiros que trabalhavam além da cachoeira Gran Roche ele trocava mercadorias por ouro. Foram poucos os anos de felicidade. Logo a malária lhe levou o filho mais velho, Carlos, aos três anos de idade.

Nem lhe haviam secado as lágrimas quando, uma tarde, viu chegar o marido, carregado por um grupo de amigos. Trazia o peito ensanguentado. Acomodou-o na cama, examinou a ferida, compreendeu a gravidade: iria perdê-lo. O caso era complexo e não havia médico na cidade.

Durante uma semana, minimizou a dor do companheiro, aplicou-lhe compressas, falou-lhe de amor enquanto ele delirava de febre. Simeão morreu com as mãos dela segurando as suas. Tinham apenas quatro anos de casados.

A cidade ferveu de boatos. Teria sido morto pelos companheiros de viagem? Mataram-no para ficar com o ouro? Ela jamais saberia. O marido nunca voltou à consciência. Os amigos garantiam que havia sido um acidente. Contaram que, na viagem de voltapararam para almoçar na cachoeira Gran Roche. Simeão se encostara num tronco de árvore para acender um cigarro. Ao levantar o braço em que estava apoiada a espingarda, a arma caiu e disparou. O tiro acertou-lhe o peito. Fulminante.

As perdas tiveram o poder de transformar Nair em retrato da calma. Nada a abalava. Ainda era jovem e precisava sobreviver. Mudou-se com a filha para Santa Cruz, onde moravam seus pais, irmãs e sobrinhos. Ali, bordava e costurava para garantir o sustento.

Mais tarde, toda a família se mudou definitivamente para o Oiapoque e Nair foi para Belém fazer um curso de Laboratorista no Instituto Evandro Chagas. Formada, passou a trabalhar no Posto Médico de Oiapoque.

Incrementou seus conhecimentos trabalhando em parceria com o pai. Farmacêutico formado na prestigiada Faculdade de Medicina da Bahia, Fernando Guarany fabricava remédios, fazia exames e realizava pequenas cirurgias na ausência dos médicos.

Aos poucos, sua amizade com os padres do Oiapoque – Carlos Bassaini e Jorge Basile – inspirou-lhe uma religiosidade serena, feita de pequenos gestos de amor. Converteu-se em demonstração viva de amabilidade, paciência e perdão.

Foi assim que transformou a nova profissão em missão de toda a vida. Fazia exames nos caboclos e índios, suturava ferimentos, aplicava injeções, receitava remédios – tudo com gestos leves, sorriso no rosto, atitude atenciosa. Sua maior competência, entretanto, eram os partos.

Sua fama se espalhou e raras eram as crianças do Oiapoque que chegavam ao mundo sem que “Dona Nair” estivesse presente. Não havia hora ruim. Levantava-se à noite, sob chuva, sem um traço de desagrado. Se a parturiente vivia em Clevelândia, alguém da família vinha buscar a parteira na cidade vizinha. Imediatamente pegava sua maletinha com o material necessário e caminhava por quase cinco quilômetros na estrada de terra, sem iluminação, em meio à densa floresta e atravessando sobre pontes de madeira.

Ignorava a mata fechada, a escuridão e o risco de ser atacada por onças ou picada por cobras. Também não se intimidava com as chuvas que transformavam a terra piçarrenta em lama vermelha. Retirava as sandálias pobres, para preservá-las do caminho acidentado. Ploch, ploch, seguia descalça em meio ao lamaçal, carregando uma sombrinha, conversando animada pelo caminho.

A coragem e a serenidade perante as crises se tornaram suas marcas. Como na ocasião em que desapareceu, nas águas do Oiapoque, um padre francês. A canoa em que viajava o sacerdote virara na morne, um perigoso trecho do rio. Nair participou das buscas, como toda a população do Oiapoque. Foi ela quem o encontrou. Viu os cabelos que rodopiavam em um dos redemoinhos da morne. Os homens estacaram. Sem hesitar, ela mergulhou as mãos na torrente, tocou os claros cabelos encharcados e começou a puxá-lo para fora da água. Os canoeiros saíram do choque e a ajudaram.

A população da cidade se afeiçoara à figura gordinha, de sorriso doce, que atravessava a cidade carregando a maleta preta com seringas e medicamentos. Era onipresente. Além do Posto de Saúde, colaborava nas festas da cidade. Ornamentava a Igreja e costurava as roupas e asas das crianças que, vestidas de anjo, participavam da coroação de Nossa Senhora das Graças.

Na festa da padroeira, em 15 de agosto, trabalhava na organização das barracas do arraial, preparando comidas típicas, fazendo enfeites de papel de seda. Nas celebrações da Escola Joaquim Caetano da Silva também era presença certa, arrumando enfeites, treinando os pequenos artistas, decorando os salões.

Quando a filha se tornou adulta, mandou-a estudar em Belém, com as freiras do Colégio Santa Rosa. Compensou a saudade cuidando dos afilhados – e meio Oiapoque era afilhado dela. Mal punha os pés na rua e surgia um moleque: “A bênção, minha madrinha!” Sorrindo, ela respondia: “Deus te faça feliz!”.

Nos raros domingos sem partos ou curativos a fazer, balançava-se numa rede em seu sítio, um lugar paradisíaco, com árvores frutíferas, passarinhos e uma pequena cachoeira, na estrada que levava à base aérea.

Morreu de leucemia no dia 29 de março de 1972, em Belém. No sepultamento, o lamento inconformado de um morador do Oiapoque traduziu o sentimento geral: “Dona Nair salvou tantas vidas e ninguém conseguiu salvar a dela”. A Câmara Municipal a homenageou dando seu nome a uma avenida da cidade.

No Oiapoque, durante anos, os amigos comentaram sobre sua coragem durante a doença. Sofria em silêncio, evitando “dar trabalho” a parentes e enfermeiros. Trazia nas mãos um pequeno terço quando se despediu, sorrindo: “Já não sinto dor”.

Era Sexta-Feira da Paixão e ela, finalmente, tinha asas.

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Este texto faz parte do livro História de Oiapoque, de Sonia Zaghetto.

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Pintura: Leonardo da Vinci. Detalhe do quadro A Virgem das Rochas ou Rochedos. Há duas pinturas com esse nome. As composições, quase idênticas, estão no Museu do Louvre, em Paris, e na National Gallery, em Londres.

Veja abaixo as duas versões. A de Londres está à esquerda e a de Paris à direita.