Dá-nos a bênção, bondosa Senhora de Nazaré

(Vós sois o lírio mimoso – hino oficial do Círio de Nazaré)

É mais que uma procissão. O Círio de Nazaré ultrapassa definições. Está entranhado na alma paraense, vem pelo ar, entra nos pulmões, corre nas veias, oxigena a vida e alimenta o coração. Seu significado forte e visceral tem origem na maternidade – nasceu na intimidade das casas, nutriu-se na comunidade, foi transmitido por gerações – e foi cultivado sob o espírito português que ainda sobrevive nas terras do Pará.

Portugal está na azulejaria das casas da Cidade Velha, no sotaque paraense, nos nomes dos lugares – Santarém, Vigia, Bragança, Óbidos – mas também e principalmente na religiosidade filial que há mais de dois séculos transborda nas homenagens a Nossa Senhora de Nazaré.

Quando passa a romaria, um nó se instala na garganta. Há algo sagrado em testemunhar aquele mar de gente caminhando contrita, cantando o “Lírio Mimoso”, carregando suas promessas e esperanças. Move-se a multidão como um véu de seda que flutua sobre o chão, toda ela em câmera lenta.

Um filme monumental no qual, aqui e ali, se vê em close mãos crispadas, corda retorcida, humildes de joelhos sobre pedaços de papelão, flores na berlinda, água caridosamente distribuída aos romeiros, braços que prontamente socorrem os desmaiados pelo calor, chuva de papel picado que cai do alto dos edifícios.

Mesmo nós – os jornalistas que acordávamos às 4 da manhã para acompanhar a saída da procissão na Catedral da Sé – vezes sem conta nos vimos, por alguns segundos, paralisados diante das manifestações de fé que se multiplicam na romaria. Não estávamos sós. Conosco estavam as crianças vestidas de anjo, as avós lacrimosas, os pais de família desempregados, os velhos de lento caminhar, os que na cabeça carregavam miniaturas de casas, os curados levando ex-votos de cera, mas também os bêbados do Bar do Parque, os mendigos da Praça da República, o pessoal dos prostíbulos próximos ao Porto.

Juntos e misturados, os que trabalham e os que oram; os felizes da terra e os desvalidos; devotos e ateus; pecadores e candidatos à santidade.Sobre todos esses, entretanto, pairava um personagem maior, coletivo: as mães.

Círio é maternidade.

O profundo espírito da festa de Nazaré é a identificação entre a figura de Maria e os seus devotos, seus filhos. As mulheres a vivenciam no próprio corpo. Por isso, à passagem da berlinda, elas – as mães – se movem simultaneamente, eletrizadas. Erguem os rostos para o céu, estendem as mãos, suplicam pelas bênçãos que vão retransmitir para os seus meninos. E se benzem, beijam seus rosários, atiram botões de rosas. Quase sempre choram, dobram os joelhos, inundadas de amor.

Desde tempos remotos, as mulheres comandam o Círio nos bastidores. Por elas e com elas, segue a grande romaria. Desde o século dezoito, a devoção à Virgem de Nazaré percorre as ruas de Belém, antecedida por longa preparação. Há ritos. A maioria deles é, na sua origem, profundamente feminina – as flores que enfeitam a berlinda, o manto bordado, a decoração das mesas com toalhas caprichadas, as comidas típicas servidas no tradicional almoço do domingo do Círio. E, sobretudo, a homenageada.

O Círio é festa de sabor antigo. Há mais de duzentos anos, as famílias se reúnem nessa data e os parentes vêm do interior para a cidade. Exatamente como na época em que se ia esperar os barcos chegarem ao Ver-o-Peso trazendo gordas aves para preparar o pato no tucupi. Tempo em que, nas casas, a maniçoba fervia por muitos dias nas enormes panelas e o aroma do doce de cupuaçu tomava as ruas. Tempo em que perfumava a casa com incenso e havia arraial com pescarias, barracas de doces, maçãs do amor e as cores vibrantes dos brinquedos de miriti.

Tudo isso fazia tremer por dentro, de ansiedade e alegria, como na noite do nascimento de Jesus Cristo ou na véspera de um casamento de amor.

A festa maternal não é exclusiva do Pará. Tomou a Amazônia brasileira. É de adoçar os olhos ver os pequenos marinheiros, os anjos com traços indígenas, a devoção dos ribeirinhos nas canoas, as meninas vestidas de Santas, as cantigas e rezas vindas da velha Ibéria, o grande número de mulheres cujo nome é Nazaré.

Algumas coisas mudaram no Círio ao longo do tempo – profissionalizou-se a programação, câmeras e celulares agora registram tudo, algumas palavras do hino Lírio Mimoso parecem longínquas, há transmissão online, as comidas típicas são compradas nos supermercados e aquecidas no microondas, e alguns (mais dados a intimidades com a divindade) chamam a Santa de Nazinha ou de Nazica. Modernidades que em nada afetam o espírito fundamental do Natal dos Paraenses. Este persiste, sobrevive inteiro. Porque tem raízes fortes, ancestralidade, solidez.

Este ano não haverá a romaria – dizem. Pelo menos não a tradicional, arrastando dois milhões de pessoas pelas ruas de Belém. Mas, quando surgir o domingo, uma onda de calor e um acelerar das batidas no peito segredará a cada paraense que é Dia de Maria de Nazaré. Neste instante, de alguma forma estaremos juntos. Uns de máscara e álcool em gel, arriscando-se a percorrer os caminhos da Senhora, subindo de joelhos a escadaria da Basílica; outros orando na igreja da esquina; e alguns de olhos fixos numa televisão ou numa tela de computador, a milhares de quilômetros. Mas estaremos juntos, a viver a nossa herança. Porque é dia de Círio. É Dia de Mãe.

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P.S. A última vez que saí com minha mãe foi no Círio de Nazaré em Brasília. Eu era a jornalista escalada para a reportagem e a levei comigo. Ela estava doente – morreria um mês e meio depois. Ainda posso vê-la, com as mãos estendidas, tentando tocar as flores da berlinda onde ia a imagem da Senhora. Seus cabelos brancos – tão finos – flutuavam na brisa da tarde. Quando vi as lágrimas a escorrer pelo seu rosto, guardei o caderno de notas na bolsa e a abracei. Sabia que era uma despedida. E eu, que não creio, desejei entregá-la a algo maior que eu.

Fotos de Cézar Magalhães e Elza Lima.