Poucas pessoas vivenciaram a Paixão de Jesus Cristo como a minha avó Lucília. Desde cedo aprendi a identificar tempos de luto no casarão da minha família: o Dia de Finados, a morte de alguém velado sobre a mesa e – o mais longo – a Semana Santa. Boa parte do meu assombro era obra de vovó e seu cortejo de dores sacras. Tudo tão intenso e fundo, que quando finalmente chegava o Domingo da Páscoa todos nós sentíamos que também voltávamos à vida, desafogados, prontos a beber de novo no poço claro da existência. A aurora do sábado era um anjo a remover as pedras que haviam sido colocadas sobre o nosso peito. Puro alívio e redenção.

Já na segunda-feira da Semana Santa tudo mudava na fazenda São Luís, onde viviam os meus avós, filhos de portugueses muito devotos. Uma lufada de tristezas parecia entrar pelas frestas e impregnar-se no espírito das coisas. Minha avó, logo cedo, comandava os empregados na preparação da casa. Punha-se cortinas escuras nas janelas, que eram mantidas fechadas; guardava-se no baú as palmas do domingo de Ramos e toda a sala mergulhava em escuridão. Os espelhos eram cobertos de crepes.

Desapareciam da mesa as comidas cheirosas, as carnes suculentas. Um arroz simples e insosso, um peixe na água e sal, nenhum doce. Era para desestimular o apetite, mesmo. E ai de quem não comesse: acompanharia as tias em seus jejuns.

Das quaresmas da minha infância guardo a lembrança do silêncio, mortalha invisível a se esgueirar pelas sombras da casa enorme.

Era um tempo em que os rituais eram cumpridos, que as crianças obedeciam. Após a procissão de Ramos já começavam os alertas: esta é uma semana sem gritos, sem algazarras. Não fala alto, menino. Tira esse riso da cara, que o mal está solto na Terra, dizia a avó. Aqueles que riem, debocham do sofrimento de Jesus. A maioria das crianças não tinha idade para entender as dores de Jesus Cristo, mas eu e meus oito primos compreendíamos perfeitamente as nossas próprias dores. Obrigados à quietude, temíamos mais que tudo as sovas no sábado de Aleluia. Mesmo que quiséssemos, não conseguiríamos brincar. Havia um tal recolhimento, uma solenidade nas horas, que jamais ousamos quebrar.

Orações, Via Crúcis, procissões e a Adoração – éramos arrastados a todas elas. Até hoje me causam estranha impressão os panos roxos sobre o corpo ferido de Jesus, o encontro com Nossa Senhora das Dores. Na igreja da cidade, à luz dos círios acesos, as estátuas dos santos tinham cabelos naturais e olhos que pareciam enxergar a gente.

A Semana Santa fazia nascer em mim uma vontade de chorar sem saber por quê. Os adultos tornavam-se sérios, as caras macilentas. Comiam pouco, a cabeça baixa. Quietos.

Mal tinha acabado o verão, mas lembro do frio que vinha do chão e penetrava o corpo, entrando pelos pés.

Minha avó praticamente nada comia durante toda a semana. Na sexta, só água. E olhe lá: goles pequenos. Na Quarta-feira, proclamava:

– Esta é uma noite de trevas. A esta hora, Judas já havia traído Jesus. Trinta dinheiros que de nada valeram.

Secretamente, eu sentia pena de Judas. Boa leitora sempre fui. Notava no texto bíblico que o Iscariotes nunca imaginou que as coisas terminariam daquela forma. Pior: tudo parecia estar previsto há muito tempo e ele era obrigado a cumprir a sina traçada. A ele, um Édipo do Cristianismo, trágica marionete, restava cumprir cada passo de seu destino infeliz. Enquanto minha avó rememorava a história da Paixão, eu torcia para que, naquele ano, Judas  se rebelasse contra o roteiro, que usasse o livre arbítrio. Tinha vontade de confortá-lo quando tentava devolver as moedas, patético, desesperado, vendo a enormidade de seu erro. E engolia em seco quando minha avó lhe anunciava o castigo: enforcado, sozinho, odiado pelos séculos que viriam, tendo seu nome amaldiçoado pelas gerações. Só uma vez ousei externar esses pensamentos. Padre Sebastião, horrorizado, me ordenou rezar 85 Ave-Marias e 15 Pai-Nossos para espantar o “diabo das ideias”.

Na Quinta-Feira da Paixão, dia que minha avó preferia chamar de Endoenças, sua voz ecoava rouca.

– Hoje é o Dia da Santa Ceia. É a última refeição de Jesus. Façam o almoço e a janta de amanhã.

Depois íamos todos à igreja ver o lava-pés.

E vovó fazia questão de nos lembrar: Nosso Senhor lavava os pés dos seus discípulos para dar o exemplo. Por isso, o padre Sebastião lava os pés do seu Gervásio, do Nivaldo, do Barbosinha e até do Valentim. Eles são mendigos. Olhem para a mãozinha do padre, tão fina, pegando naqueles pés grosseiros a e sujos, cheios de calos e bicheira. Isso é humildade.

Tio Carlinhos, projeto de ateu, não se continha. Cochichava para nós, os pequenos:

– Corajoso o padre Sebastião. Estão vendo aquele pé inchado? Não é doença, não. É cachaça. A branquinha está toda acumulada ali. Se a unha do padre furar a pele e sair uma aguazinha, prestem bem atenção: é álcool puro. Se a vela cair lá perto, o fogaréu sobe e vocês já sabem: saiam correndo pra não morrerem queimados.

Minha avó beliscava-lhe o braço até os nós dos dedos ficarem brancos. Ai, dizia o Carlinhos quase rindo, mas baixando a voz. Era bem mais velho que nós e também temia os castigos do sábado de Aleluia.

Na volta para casa, vó Lucília não deixava ninguém dormir.

– Como podem descansar quando o Senhor está preso, sendo açoitado? E narrava tudo novamente.

Eu, com os dentes chacoalhando, praticamente “via” Jesus ser chicoteado, as carnes sendo arrancadas do corpo, as gotas de sangue escorrendo da testa ferida pelos espinhos, vestido com a túnica vermelha, alvo de risadas, abandonado pelos amigos. Ficava com pena. Prometia que ficaria acordada em solidariedade, mas antes de Pedro negar três vezes os meus olhos se fechavam.

Ao longe, ouvia a voz da avó reclamando:

– No meu tempo, criança era mais devota. Endoenças é dia de vigília. Esses moleques de hoje são preguiçosos igual aos apóstolos dorminhocos. Jesus orando e eles roncando.

– Por isso ainda tenho esperança de ser canonizado. Não tem candidato melhor que eu a padroeiro dos homens insones, dizia o tio Carlinhos. E a essa fala se seguia um olhar terrível de minha avó.

Na Sexta-Feira Santa o silêncio se impunha. Minha avó não admitia conversa fiada. Só rezas. Não se fazia trabalhos na casa, a cozinha silenciava, as panelas areadas e limpas dormiam nos ganchos.

Com a cabeça coberta por sua mantilha preta, logo cedo a avó se postava diante do oratório da fazenda. Aboletada na poltrona do meu bisavô, narrava os sofrimentos de Jesus. Relembrava toda a Via Sacra. Era uma grande contadora de histórias. Nós, a seus pés, ouvíamos impressionados. Sua voz traçava as cenas de Pilatos lavando as mãos, Jesus vergado sob o peso da cruz, o povo aplaudindo Barrabás.

Acompanhávamos de olhos arregalados o encontro do Cristo com a mãe e as mulheres de Jerusalém, sorríamos levemente em Simão de Cirene, tropeçávamos quando vinham as quedas – a primeira, a segunda, a terceira; e suspirávamos de alívio quando Veronica lhe enxugava o rosto (uma das minhas tias tinha um pano pintado para nos demonstrar e sempre surtia grande efeito). Por fim, o barulho dos pregos rompendo os ossos, a morte, o vinagre levado à boca, João amparando Maria, a descida da cruz, o sepultamento.

Acabada a narrativa, recolhia-se a avó, penitente, de joelhos no chão, a derramar lágrimas sentidas olhando a imagem do crucificado.

Às três da tarde, levantava-se solene.

– Tudo está consumado.

E eu, com o texto bíblico decorado, quase podia ouvir se rasgarem as cortinas do templo de Jerusalém. Estremecia, mas logo via tio Carlinhos se esgueirando pela cozinha, pronto a atormentar a Odete.

– A que horas se serve a janta?

Era a senha. Eu e os outros primos escapávamos para o quintal, a catar as frutas nas árvores, a implorar baixinho às tias que fizessem bolinho de chuva. Em vão. Ainda havia peixe e silêncio no jantar, mas era aquele sentimento pós-enterro, como quando a gente machuca um dedo e ele fica latejando.

No sábado, o clima era outro. Já acordávamos com o cheiro do café se espalhando pela casa, o pão de queijo assando, o bolo de fubá sobre a mesa. Minha avó – alma pacificada pelo dever cumprido – comandava as panelas. Ainda falava pouco, pois que seu Jesus havia descido ao mundo dos mortos, mas já não nos dirigia olhares de congelar o espírito.

A malhação de Judas começava perto do meio dia. No alto do pau de sebo, um testamento ria-se dos aflitos. Poucos eram os que não estremeciam ao contemplar a folha de papel num envelope. Ninguém descobriu jamais o autor. Tio Carlinhos era o favorito. O certo é que expunha todos os segredos da fazenda e dos conhecidos da cidade. Não havia mazela conjugal, dívida, logro,, namoro escondido ou mulher prenha que não fosse descoberto. Os risinhos ocultavam o nervosismo.

O pobre Judas era estraçalhado num linchamento coletivo. Atividade destinada apenas às crianças e aos homens adultos. Rasgava-se todo o boneco de pano numa disputa selvagem e catártica. Jesus estava vingado. Em seguida, era hora de abrir o testamento. Um moleque subia até o alto do poste e de lá atirava o documento. Tio Carlinhos era sempre escolhido para ler. Um talento natural para a comédia.

– Deixo minhas calças para o Zé das Couves! Anunciava, em pose de arauto real.  Fazia uma pausa dramática, demorava o olhar sobre a plateia e, por fim, abria os abraços e soltava a frase quase gritada: pra ver se não embucha a mulher errada!

As risadas espocavam, mas um zunzunzum e uns olhares disfarçados percorriam todas as barrigas femininas em busca de sinais de gravidez. Depois paravam por um longo tempo nas faces, de tocaia à espera de alguma bochecha corada. Minha avó não participava. Recolhia-se ao quarto, a velar silenciosamente o Senhor morto.

O domingo de Páscoa era como o sol após noite de tempestade. Céu claro, risos altos. Vestidos nas roupas engomadas, voltávamos da missa ansiosos pelos presentes. O capricho das tias nos presenteava com pequenas obras de arte: ovos de galinha ricamente decorados. Por meses elas haviam colecionado as cascas dos ovos. Faziam pequenos buracos no fundo, retiravam o conteúdo, lavavam, secavam e os pintavam com  desenhos elaborados, tintas feitas de flores. Na manhã da Páscoa nos davam as pequenas joias, acompanhadas de doces, biscoitos e suspiros. Guardávamos com o máximo cuidado. O mais disputado era o presente de Tia Luiza, a artista da família. Verdadeiras joias em miniatura, copiadas dos livros, com arabescos, miniaturas de pessoas, paisagens e letras douradas. Um Fabergé da roça.

Minha avó repetia o dia inteiro os detalhes do sepulcro aberto, Jesus disfarçado de jardineiro, o triunfo da vida espargindo esperança líquida sobre a aridez da finitude.

Na hora do almoço, a mesa estava enfeitada de flores. Já não havia panos cobrindo espelhos e móveis. A casa lavada, as toalhas cheirosas de alfazema. Pelas janelas abertas entrava uma brisa fresca que agitava as cortinas de renda branca. Da cozinha vinha um cheiro de assados e as tias cantavam, acompanhadas ao violão por tio Carlinhos.

Comíamos o bacalhau com batatas coradas e muito azeite, pudim de leite derretendo na boca, arroz soltinho, temperado com especiarias.

Vovó sorria como se jamais tivesse ficado triste. Nós sorríamos junto.

***

Texto: Sonia Zaghetto

Pintura: Iliá Kaverzniev. “Domingo de Páscoa

Esta é uma obra de ficção.